Descobriu que a imponência e o poder que demonstra são uma mentira convincente aos olhares distraídos e impressionáveis. Aos de Fernanda, tudo se desconstruiu em poucos minutos: foi fácil fazê-lo assumir que prefere ser enganado a contariado e que se satisfaz com a ilusão consciente do domínio.
domingo, 14 de março de 2010
terceiro
Descobriu que a imponência e o poder que demonstra são uma mentira convincente aos olhares distraídos e impressionáveis. Aos de Fernanda, tudo se desconstruiu em poucos minutos: foi fácil fazê-lo assumir que prefere ser enganado a contariado e que se satisfaz com a ilusão consciente do domínio.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
pois é
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
querida alice
domingo, 21 de fevereiro de 2010
o louco
a forma de um rei ou de um vagabundo,
a forma da juventude ou da velhice,
a forma da estupidez ou da sabedoria.
Minha mochila está vazia.
Minha mochila contém o Céu e as estrelas,
o Sol e a Lua,
o mar, as florestas, as cidades com seus moradores
e o vento que vem do mar,
o vento onde voam os pássaros
e o vento de Luz, que vem das galáxias.
Não sei nada, o Universo é grande demais.
Eu compreendo sendo.
Para compreender o rei eu sou o rei,
para compreender a vida sou a vida,
para compreender o amor, amo.
Para compreender o relâmpago, eu caio do Céu,
para compreender o fogo, danço a dança das chamas,
para compreender você, sou você.
Para compreender o Divino, entro em comunhão.
Podem latir os cachorros e morder.
Podem morder as minhas roupas.
Não podem morder o Nada que eu sou."
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
quarta de manhã (v. Clarice)
quarta de manhã (v. Fernanda)
quarta de manhã
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
segunda de manhã (v. clarice)
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
segunda de manhã (v. tereza)
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
segunda de manhã
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
até então
Ele sabia que se casaria com ela. Enamorou-se por seus tornozelos com pingentes. Desde aquele início de noite, de quase temporal. Ela tinha o sorriso mais bonito que ele já vira. E descobriu que já era apaixonado por ele mesmo antes de vê-lo pela primeira vez.
manual de boas maneiras
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
de mãos dadas
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
vou festejar
Renovação total. Mudanças, desafios, dúvidas, lições pra encararar mais um turno. A ilusão de um ano novo que ajuda no reinício, motiva e inspira.
Vou festejar então.
Por ter experimentado a vida e a morte.
Por ter conhecido pessoas incríveis.
Visto lugares maravilhosos.
Por ter reencontrados sentimentos esquecidos.
Pessoas que estavam tão perto e tão longe.
Por ter conhecido a felicidade em estado bruto.
Por ter me decepcionado.
Mais uma vez e sempre.
Por ter me apaixonado, mais de uma vez.
Por estar apaixonada.
Por estar amando.
Por estar vivendo.
Vou festejar e chorar nesse fim de ano.
E me lembrar de tudo o que senti, provei, aprovei e reprovei.
E vou festejar tudo que ainda está por vir e o friozinho na barriga que dá não saber exatamente o quê.
2010.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
flor
Não obstante o falatório geral, não houve santo que tirasse da cabeça de Alice que as histórias que corriam por aí tinham um quê de mal contadas. E, então, descobriu que não era bem assim que a banda tocava. Literalmente. Ademais, em favor das duas e em desfavor do restante, encontraram-se em uma sintonia talvez inédita. Três passos para frente, um para trás, sempre com um pézinho fincado em terra firme, foram aos poucos aparando arestas invisíveis. Quando se deram conta, passaram a confidenciar o que até então foram levadas a crer serem banalidades.
Clarice e Alice.
Não têm paciência para a inércia, mas muitas vezes se acham incapazes de sair dela.
Não sabem se compram uma TV ou se andam de bicicleta.
Juram que lealdade e fidelidade não são a mesma coisa.
Têm vontade de sair correndo quando ouvem uma música que amam.
Querem ficar sós, mas se sentem como um cão sarnento por acharem que não têm amigos.
Se apaixonam rápido e se desapaixonam mais rápido ainda.
Fazem as pessoas se apaixonarem por elas. E juram que não é por querer.
Provocam amor e ódio simultaneamente.
Estão sempre em ponto de ebulição.
Detestam o óbvio.
Atraem-se pelo excêntrico.
Clarice e Alice.
Separadas no nascimento?
(F)
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
dois cafés com açúcar
Era prali que eles fugiam depois do almoço, tomavam um café requentado que ele teimava em dizer que era o melhor dos arredores e fumavam um ou dois cigarros, quando tinham um pouco mais de tempo. Falavam sobre tudo, sobre nada, se amavam e se odiavam.
Foi ali que ela se sentou pela primeira vez com ele, quando ainda nem sabia andar pelo centro. E deu uma tristeza saber que além deles, o bar também não iria mais existir, não da mesma forma que antes.
Ela se deu conta, então, de que fotografa lugares por onde passa, guarda reportagens que lê, decora letras de músicas inteiras, compra livros e assiste a filmes sempre que tem vontade de estar com ele, numa tentativa vazia de compartilhar sozinha um momento deles dois.
Uma maneira leviana de matar as saudades.
E de sentir, por um segundo que seja, aquela completude que só ele proporcionava.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
por onde anda minha Tereza?
Ela busca no desvio do olhar que ele dá quando se encabula uma nesga de verdade. Acha. E vê que ele se desconcerta, que ela o faz cair desse pedestal que ele construiu para ser notado, mesmo que somente pelos espelhos que projeta de todos os lados.
Tudo que ela pensa é em como ele seria mais alto e mais bonito daqui de baixo. Mais verdadeiro e menos vulgar. Menos forçado, menos banal.
Tereza gosta do jeito que ele morde o lábio de baixo quando pensa em beijá-la. Ela sempre pisca de leve o olho esquerdo só pra ele se certificar de que ela o entendeu. Ela gosta da virilidade do corpo jovem, do jeito sem jeito que ele reage quando eles se esbarram, jamais sem querer. É isso.
Tereza adora o jeito como eles fingem coincidências.
domingo, 25 de outubro de 2009
samba e amor
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
o meu amor
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes
Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
domingo, 4 de outubro de 2009
detalhes
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
versículo vigésimo segundo
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
21 andares
Quando finalmente o barulho diminuiu, Tereza já estava com o indicador direito colado na campainha, como se para todo o prédio ouvir. Ele abriu a porta ainda com o telefone na mão, sem camisa, olhando pra ela, os cabelos embolados, a blusa branca manchada da garoa, pedindo permissão para entrar. Ele lhe deu passagem e perguntou se ela queira uma água.
Ela sentou no sofá e, bem Tereza, puxou um assunto aleatório. Ele prosseguiu oferecendo um pedaço de um doce amarelo e foi esse o dia em que Tereza comeu pamonha pela primeira vez. E na verdade não gostou. Então, de repente, sem nem se lembrar o porquê, voltaram a discutir. Ela chegou a sair porta afora, mas ele, num puxão pela cintura, a trouxe de volta já com a boca colada na dela. Quando voltaram para o sofá, ele já tinha as mãos percorrendo-lhe as coxas por baixo da saia curta.
Eles treparam na sala, passaram pelo chão do corredor e terminaram em cima da cama, com Cesar aos prantos, perguntando como ela tinha coragem de fazê-lo sentir aquilo tudo e depois se despedir. Tereza já pegava a chave do carro e procurava um dos brincos que perdera no trajeto. Beijou-lhe as lágrimas, enxugou-lhe os lábios, mergulhou o nariz em sua nuca, ainda agarrada aos fios escuros que a percorriam, desculpou-se mais uma vez e bateu a porta em suas costas, ainda ouvindo os soluços que atravessavam a parede. Desceu o elevador, o rosto pálido em choque.
Terminou a noite, totalmente perdida, com as pernas abertas pro Beto, imaginando quem seria o pai se a pílula falhasse.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
baby goodbye
terça-feira, 22 de setembro de 2009
em suma
Clarice é feliz,
Fernanda é livre,
Tereza é indiferente.
Para a família,
Clarice é mãe,
Fernanda é forte,
Tereza é um caso perdido.
Para a sociedade,
Clarice é convencional,
Fernanda é excêntrica,
Tereza é uma ameaça.
Para o analista,
Clarice é uma fraude,
Fernanda é uma farsa,
Tereza é um cristal.
No amor,
Clarice acha que sabe,
Fernanda sempre se entrega,
Tereza tomou horror.
Pela manhã,
Clarice não gosta de sexo,
Fernanda não gosta de acordar só,
Tereza está indo dormir.
Na cama,
Clarice fecha os olhos,
Fernanda olha nos olhos,
Tereza olha para o espelho.
Na realidade,
todas elas,
e todas as outras,
numa
só.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
pra cima de mim?
*ainda na página 19 e mal posso esperar pelo final
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
ponto final
Ainda sentia o hálito quente do beck que tinha acabado de fumar e a respiração dele exalando álcool soprar no seu pescoço. Começou a procurar as chaves, adiantando o trabalho de achá-las na porta de casa.
Apesar do ar condicionado, ela podia sentir o cheiro da chuva que se aproximava e por um segundo, naquele dia infernal, encostou a cabeça no banco e suspirou.
Ele olhava ela de cima, podia ver seus tornozelos roçando uns nos outros e uma pétala de rosa vermelha que vazava atrás da orelha direita, escorregando pela nuca, se escondendo entre os fios de seus cabelos. Não sabia se o perfume era dela ou da flor e sentiu-se um pouco alto demais quando se viu pensando nisso. Sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo inteiro e apertou os joelhos com as mãos geladas.
Ela ainda ouvia a música que tocava no rádio quando passou pelo bar em frente ao ponto e conseguia ver seu reflexo pelo vidro da janela, fingindo que não a notava. Começou a estalar os dedos, primeiro pressionando os indicadores com os polegares da mesma mão e nesse movimento ele pôde ver as três alianças idênticas que ela usava em um só dedo da mão esquerda. Os três homens da minha vida, meu pai e meus irmãos, como um dia ela lhe contaria.
Enquanto o ponto final se aproximava, Tereza começou a vasculhar a bolsa, sacou uma boleta de cartão de crédito, escreveu seu telefone nela. Levantaram-se; ele primeiro, ela, logo em seguida; e assim que a porta abriu, guardou o papel no bolso de trás da calça dele.
E antes que chegasse na porta de casa, junto com as gotas grossas de chuva que começavam a lhe molhar os pés, ouviu pela primeira vez a voz do Beto, do outro lado da linha.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
clarice (a lispector)
Semana passada de bobeira zanzando pelo site do Rio Show, encontrei essa peça. Ali, logo do lado do escritório, no CCBB. Meia entrada, 5 pratas.Ontem estava aqui e mandei esse conto pra Fernanda. Qual foi minha surpresa ao reconhecermos o mesmo bendito e adorado conto na peça hoje.
"(...) Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe."
'Simplesmente eu. Clarice Lispector' @ CCBB, adaptação, direção e interpretação: Beth Goulart, 4ª a dom, 19h, até 04 de outubro, 3808-2007.
(chegue cedo, hoje quase não conseguimos ingresso)
terça-feira, 1 de setembro de 2009
brincando com fogo
E, então, um dia ele conheceu a mãe do futuro filho dele e soube disso no primeiro segundo que a viu, só pelo sorriso que ela deu sem abrir os olhos. E ele tinha cada vez mais certeza disso, na medida em que ela pouco se importava com ele, enquanto a Tereza - e todas as outras - se estrebuchavam no chão esmolando um espaço na sua alma.
O Beto não se reconheceu e se desesperou no dia em que sentiu saudades dela e muito pior quando se viu ardendo de ciúmes. Ele não escondeu dela o revertério que sentia com ela por perto e enlouquecia cada vez que ela achava graça da situação.
Foi nessa época que a Tereza invadiu a casa do Beto e num surto psicótico tentou incendiar a casa dele.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
raimunda, eulália, isidra...
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
já era de se imaginar
E então, Clarice não pôde suportar o livre arbítrio, a liberdade recém conquistada, as escolhas a lhe torturarem e decidiu retornar para a certeza medíocre de onde saiu. Adeus frio na barriga, boca salivando, coração acelerado. Adeus vontades. Adeus. Correu de volta para sua vida enlatada, como um ladrão que roubou, mas não conseguiu levar, o rabo enfiado entre as pernas, muda, engasgada com a vergonha que lhe consumia pela covardia.
Chegou em casa; Gabriel inerte sentado na poltrona, olhando para a TV, nem ao menos se deu conta de que ela havia saído para nunca mais voltar.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
em (ho)menage(m)
ousada
amorosa
*
responsabilidade
franqueza
Busca um comportamento que esteja acima de qualquer julgamento e não aceita a companhia dos que não agem de acordo com suas convicções. Exemplo de honestidade e equilibrio, busca agir sempre com imparcialidade. Excelente anfitriã, gosta de ouvir tudo o que as pessoas têm a lhe dizer. Cerca-se sempre de conforto e qualidade.
São muitos os pontos positivos, mas frequentemente corre o risco de ser vista como orgulhosa. Driblar este aspecto torna-se fácil quando aprende o valor da compreensão e a perdoar os erros dos outros.
parabéns pra vc.
nessa data querida.
(L)
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
sábado, 8 de agosto de 2009
doutor Urbino
Dizia:
'O problema do casamento é que se acaba todas as noites depois de se fazer o amor, e é preciso tornar a reconstruí-lo todas as manhãs antes do café.' "
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
cômodo
Arrastou-se por toda a casa, dando adeus ao que um dia fora seu lar. Olhava para os móveis e tinha dó de si mesma quando se lembrava do quanto fora feliz. Ouvia ecoar os risos por todos os cômodos, até se perderem no silêncio que já se incorporara à sua vida. Olhou pela janela e o dia preguiçoso começava a se iluminar.
Pensou mais uma vez em tudo o que estava deixando para trás. As mãos gelaram e chegou a enausear-se. Recomeçar já era realidade, mas cadê a coragem, cadê a segurança?
Por um momento não conseguiu entender porque tinha resolvido assim. E então lembrou-se do frio na barriga que tinha voltado a sentir sem explicação, sem lhe pedir licença.
basta [1]
Pensou em como achava tudo aquilo uma bobagem, em como as pessoas teimam em dificultar a vida, em como tudo seria mais simples se todo mundo optasse simplesmente por viver, em como está cansada de se sentir vulnerável.
Cogitou perguntar, expor, convencer, dizer o quanto deseja, contar a sua entrega e no final Vai tomar no cú. Chega. Cansei.
a volta
Entrou no chuveiro de roupa e tudo, a água gelada encharcando-lhe a alma. E aos poucos, o vazio foi dando lugar a um grunhido agudo e lancinante, e, de repente, ela gritou.
E debatia-se e chorava, prensava os olhos tentando expelir toda a dor numa golfada. Viu-se encolhida no chão do box, as mãos agarradas aos cabelos, já sem as roupas lançadas como trapos contaminados de peste. Como tremia.
Por um segundo, viu tudo se apagar, o corpo congelou de baixo para cima e deu graças a Deus.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
ansiedad
sexta-feira, 31 de julho de 2009
es muss sein!
"Além do seu amor por Tomas, que se consumara, havia no reino das possibilidades um número infinito de amores não-consumados por outros homens.
Acreditamos todos que é impensável que o amor de nossa vida possa ser uma coisa leve, uma coisa imponderável; achamos que nosso amor é o que devia ser; que sem ele nossa vida não seria nossa vida."
Milan Kundera - "A insustentavel leveza do ser"
terça-feira, 28 de julho de 2009
me desdobra
Saiu então atropelando todas as portas da casa com as costas dela, até cairem deitados na mesma posição, mas sem nunca, nunca descolarem os lábios.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
benditas
Os lugares onde não fui
Os gostos que não provei
Meus verdes ainda não maduros
Os espaços que ainda procuro
Os amores que eu nunca encontrei
Benditas coisas que não sejam benditas
A vida é curta
Mas enquanto dura
Posso durante um minuto ou mais
Te beijar pra sempre o amor não mente, não
mente jamais
E desconhece do relógio o velho futuro
O tempo escorre num piscar de olhos
E dura muito além dos nossos sonhos mais puros
Bom é não saber o quanto a vida dura
Ou se estarei aqui na primavera futura
Posso brincar de eternidade agora
Sem culpa nenhuma
sexta-feira, 24 de julho de 2009
6 franceses, por favor
Até que numa tarde de sábado, sem maiores pretensões, Tereza saiu para comprar uns pães na padaria, cruzou com a mãe do (futuro) filho do Beto e só voltou pra casa 4 dias depois.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
me encosta
Ele, claro negou a oferta e já tinha os olhos nela toda. Ela, em contrapartida, mantinha o olhar fixo, as sobrancelhas semierguidas, como se estivesse vendo muito através e além das paredes que os mantinham prisioneiros daquela tensão. Vez ou outra baixava as pálpebras em busca da caneca de café onde batia a cinza do cigarro.
E ele, com os olhos ainda nela toda, sentia o coração ser esmagado pelas duas mãos de um gigante, mas, ao mesmo tempo, tentando escapolir pela garganta afora. Fazia tanto silêncio que lhe afligia a idéia de que ela percebesse seu peito sendo espancado por dentro.
Não foi o tempo de só um, mas de três cigarros. Ela mergulhou a última guimba na caneca e jogou as pernas para o lado; plantou os pés no assento do sofá e abraçou os dois joelhos de uma vez.
Ele voltou os olhos novamente para seus pés, porque as pontas dos dedos lhe resvalaram por um milésimo de segundo. Foi aí que sentiu correr pelas costas uma gota solitária de suor gelado, que fez seu corpo se arrepiar por inteiro.
terça-feira, 21 de julho de 2009
sem prazo dessa vez
É isso. Você tem gosto de maçã com canela e foi por isso que me dei conta de que já tinha dormido com você.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
turma de três
Hoje é dia do amigo. Prefiro dizer, que hoje é o dia dos vértices. Desse triângulo às vezes retângulo, às vezes eqüilátero; mas o que importa, na verdade, é que ele nunca vira uma reta. Nem um círculo. E nessa matemática vamos mantendo esse vínculo distinto.
No fundo parece que demos as mãos pra nos restringirmos às coisas que nos constroem como indivíduos e não ao que nos rodeia. O que está fora, permanece fora, não porque não importa ou porque não influencia, mas simplesmente porque não tem espaço. Porque esse triângulo é nosso. Das nossas bobeiras, idéias, putarias, sonhos, desejos, dos nossos passados, da nossa troca.
E foi tão assim, sem querer, que quando vi, já não tinha mais jeito, não dava mais pra sair.
Um post para os vértices, representando, hoje, todos os amigos de sempre.
segunda-feira
Foi antes do chá preto da manhã, quando comprava os biscoitos pra acompanhá-lo, que Luiza voltou pra sua vida. Assim, sem mais. Desenrolou o cachecol do pescoço, livrando-se dos teimosos cachos, já sorrindo pro rapaz franzino do balcão, pedindo uma média e acendendo um cigarro.
Já eram tantos anos desde aquele dia do portão, que Clarice tremeu e gelou só com a idéia de que Luiza não se lembraria dela.
Mas como Luiza poderia esquecer aqueles olhos?
sábado, 18 de julho de 2009
me sufoca
Ele olhou pras unhas dos pés dela pintadas de vermelho sangue, sem desgrudar os olhos, e disse surpreso Eu não sabia que você fumava.
E ela displicente Eu não fumo. Você quer um também?
segunda-feira, 22 de junho de 2009
o (meu) relógio da (sua) cozinha
Mas teve um dia em que Fernanda se entregou, perdeu o juízo, sem motivo aparente ou sem precedentes, descobriu que amava Flavia. Não era só uma curtição de bebedeira, ou uma sensação diferente. Ela queria ficar junto, andar de mãos dadas na rua, dar beijo na praça e tomar uma média na padaria. Ela queria dormir grudado, acordar embaixo da coberta, dividir os pijamas e fazer picnic.
A Fernanda não escolheu o melhor jeito de contar isso pra ela, mas, no final, de certa forma, até que funcionou. A Flavia foi pra parede, com as mãos da Fernanda grudadas entre ela. Não sabia se tentava prender a outra ou se se segurava pra não cair. E tudo veio como uma avalanche e elas lá no topo de mãos dadas, só olhando.
E dias depois, a Fernanda recuou e a Flavia cedeu, se esqueceu de todo o resto, e só se ouviam os corações descompassados que quase estouravam e afogavam as duas de dentro para fora.
Então, um dia, a Flavia decidiu que não ia se decidir e resolveu que não ia continuar. Ela preferiu enganar todo mundo, ela e a Fernanda, e tomou sua decisão. E Fernanda não entendeu, não aceitou, chorou e não dormiu por dias seguidos. E a Flavia plácida e impávida, não mexia um músculo do rosto.
A Flavia voltou pra realidade dela e a Fernanda mudou de realidade.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
quarta-feira, 17 de junho de 2009
itália (fim)
Chegou. Jogou o casaco no encosto da cadeira e tirou os tênis usando os próprios pés. Pegou um copo d'água gelada e virou quase num gole só.
Quando finalmente se jogou no sofá, apoiou os pés numa almofada e notou que uma das meias tinha uma mancha escura.
Preciso parar um pouco. Talvez de querer ser todos e não ser nenhum. De parar pra pensar em tudo e tentar achar motivos para não pensar em nada. Parar de me preocupar com o que já passou e dar valor ao que vivi. E não foi pouco. Mas quando tento me lembrar, acho tudo tão distante, que quase não vejo sentido para a maioria das coisas.
Como é chato lembrar só dos primeiros. Primeiro dia na escola, primeiro beijo, primeira transa, primeiro porre, primeiro fora, primeiro salário, primeiro amor.
Aí chega uma hora, que a gente já fez tanta coisa, que começa a repetir. Primeiro dia na escola nova, primeiro beijo ralado, primeira transa com mulher, primeiro porre com amnésia, primeiro fora-fossa, primeiro salário de férias.
Pois é. O amor continua sempre sendo o primeiro, toda vez que a gente esbarra com ele.
terça-feira, 16 de junho de 2009
dança da solidão
Ficou louca, socou as paredes, virou noites em lugares que nem lembra, tentando fugir da realidade que a engolia. Ela se meteu em todas as roubadas, em milhares de furadas, fingiu pros outros e pra si mesma. Muitas vezes quase acreditou.
No entanto, só ela sabe o esforço que fazia para se sentir acolhida ao lado de tantos outros caras.
Ela fazia isso pra se convencer de que alguém também lhe dava carinho. Ela fez isso diversas vezes e só ela sabe o que era chegar em casa, depois de uma noite de trepada, e chorar baixinho, fingindo não se importar com o Beto na cama com a outra e uma garrafa de vinho vazia jogada no chão.
Ela sofria porque sabia que nada que fizesse mudaria o fato de que ela não era amada por mais ninguém.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
gabriel
Secou os pés no capacho que lhe dava as boas-vindas, enterrou os anéis de cabelos atrás das orelhas, reparou que estava sem um dos brincos, secou o rosto e ainda hesitou por alguns segundos em enfiar a chave na porta. Girou com cuidado a fechadura enferrujada e empurrou a porta sem pressa. Conseguiu não fazer barulho até tropeçar na ponta do tapete enrolada perto do sofá.
Passou pelo corredor, as pontas dos pés flutuando rangendo os tacos. Entrou no quarto, jogou os sapatos embaixo da cama, deslizou por baixo dos lencóis gelados e deitou-se de costas para Gabriel. O frio de seu corpo fez com que ele se mexesse um pouco, mas não o despertou; foi o suficiente para ele saber que ela estava ali.
Clarice não conseguia pregar os olhos. Tentava esconder as mãos ainda úmidas da garoa embaixo do travesseiro ou entre as pernas.
Pensou no homem de calças compridas abrindo a padaria, no gari tentando descolar o cartaz do poste de luz, na senhora encolhida passeando um cão com roupa e sapatos agarrada a um cigarro amassado de filtro amarelo e nas mãos pequenas e brancas de Luiza passeando no braço do sofá vermelho até encostarem nas suas.

