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quarta-feira, 18 de maio de 2011

capítulo 2 - item IV

    Revejo-a
em pensamentos,
saindo
do banho
e largando
a toalha.
    Seu corpo,
desejo
e desejo
não desejar.

    O tempo
segue 
imutável.

    Luto
para que ela
me queira
ou me deixe 
ficar.




O Natimorto, Lourenço Mutarelli.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

nobody wants you when you are down and out.

Por aqui é assim que a tristeza vem. Enquanto eu brincava de ser deus, enquanto eu dizia para os outros que ser eu me bastava. Nem eu fazia idéia de quantas vidas seriam necessárias para eu reaver tudo que havia renunciado desde o súbito momento em que resolvi decidir pelo que acreditava mais justo e honesto, ainda que por isso fosse necessário amargurar a dúvida o resto de meus dias. Por aqui é assim que me resguardo, que me afasto do olhar julgador dos outros. E cada vez mais me dou conta do quão amarga minha vida se tornou a partir do dia em que escolhi simplesmente não me importar com a opinião daqueles que me cercam, apenas porque acredito que ninguém é capaz nem tampouco digno de merecer esse posto, nem exercer essa função. Acredito que nem eu tenha o direito nem a capacidade de dizer o que é certo ou o que é errado, pois um passo só movimenta um corpo quando guiado a uma determinada direção: quantas vezes me vi repetindo meus passos por acreditar que me levariam adiante porque de outra vez o fizeram, e acabei me perdendo no caminho? É nesse mar de olhares perdidos na multidão que se encontram o meu e o seu, vagando indolentes e inertes, recaindo sobre os outros e nos julgando enquanto nos incomodamos silenciosamente com o peso da observância alheia, não pelas opiniões em si, porque estas - por mim posso falar - nada influenciam, mas pela invasão certeira quando estão em pauta nossas escolhas, nossos gostos, aqueles sobre os quais somos capazes de falar por horas a fio, sem a corrupção da crítica. Não estamos mais em cárcere aguardando na madrugada, no chão de pedra da cela fria uma mão milagrosa abrir o portão que nos cerca, e hoje acredito que nunca estivemos. As barras das grades eram afastadas o suficiente para que passássemos o corpo inteiro, baixas o suficiente para que pulássemos sem riscos; o que nos intimidava em absoluto eram os olhares dos que nos assistiam de fora: a prisão estava mesmo dentro de nós e nos impedia de perceber que tudo não se passava de um medo virtualmente imposto, sem manifestação oficial nem documental. E é essa discussão recorrente sobre o peso do olhar dos espectadores - e não das personagens - das nossas histórias que encerro aqui.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

medo da chuva.

Ao navegar sobre as ondas se está diante de um abismo que proporciona uma queda maior do que do topo do Himalaia. Estou chutando. O que importa é compreender a velocidade da descida. Pular de montanhas é rápido, perigoso e fatal. Ao se decidir mergulhar para alcançar essa profundidade, o trajeto será muito mais lento, com certeza muito menos prazeroso e, certamente, se chegará ao fim sem esgotar o percurso. Acho que minha lista de montanhas está acabando.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

me faz esse favor.

Se não houvesse tanta agonia. Talvez você seria uma possibilidade. Para me atormentar, bastam os meus dramas crônicos, as minhas vidas cruzadas, a minha disciplina inferior, o meu bosque de ilusões perdidas. Se não houvesse tanta aposta. Eu deixaria todo o otimismo para você. Para me confudir, já tenho a minha disciplina crônica, os meus dramas cruzados, o meu bosque inferior e as minhas vidas de ilusões perdidas. Se não houvesse tanta promessa. A minha crença passaria a ser no sentido que o mundo gira. Para me dispersar, tenho uma lista de bosques crônicos, minhas disciplinas cruzadas, minha vida inferior, meu drama de ilusões perdidas. Se fosse suficiente ser eu. Não seria tão trágico me importar com o adeus. Para me amar, me perseguem minhas vidas crônicas, meus bosques cruzados, meu drama inferior e minha disciplina de ilusões prá lá de perdidas.

nem sempre se vê lágrima no escuro.

E parando mesmo para pensar, nunca teríamos nos encontrado se uma vírgula desse passado de misérias tivesse sido mudada. Eu vi no clarão do raio que caía sobre o topo da minha montanha obsessiva de perguntas sem respostas. Se vou guardar essa claridade, só Deus sabe: foi ele quem fez chover.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

ante o colapso final a vertigem.

E se eu pudesse te chamar de minha o que seria essa dor? E se eu soubesse como levar essa sina esse tormento de vida que me invade, me condena? Saberia então o dia de amanhã e a vida que deixaria de ser minha, passaria a ser nossa, na contramão do mundo e estaria a mercê das opções que nos proporciona esse microcosmo que inventamos só para nós dois. Ah, como eu seria feliz em viver deitado num divã de veludo a te procurar por todos os cantos da casa com o olhar e te seguir sem me mover um passo porque não é preciso, simplesmente não precisamos mais do que um copo d'água pela metade para inventarmos a nossa realidade conforme o nosso humor. E seria completo em dividir esse desespero que é não me reconhecer e desconhecer o que tenho dentro de mim para sempre sendo isso que chamamos de nós dois e que você teima em chamar de um só. Deixa eu dizer que às vezes eu queria não ser nada, mas tão somente um sopro de brisa fresca para te iluminar o sorriso. Quanto desespero em vão, eu não choro mais. Já não tenho mais espaço para tanta mágoa e cada lágrima que sai traz de volta uma tormenta de dias já idos e vividos e teimados em reviver-se. Tanta coisa que eu já não consigo mais dizer o que é meu e o que inventei. O que eu realmente fiz porque queria e o que gostaria de ter feito para te abrir uma ferida e queimar o pouco que ainda sobrou de inteiro em você. 

vai sem duvidar, mas, se ainda faz sentido, vem.

Demorei tanto tempo para subir a escada que nem me dei conta de quão alto havia chegado.  Subi o primeiro degrau e logo fiquei um pouco preocupada por me parecer um trajeto íngreme demais. E para o segundo e o terceiro levaram tantos dias que pensei em desistir de me aventurar. O que me angustiava mais era o fato de que à medida que eu subia, notava como os degraus se tornavam cada vez mais estreitos, de modo a quase não caberem os dois pés lado a lado. Mas eu fui. Subindo, subindo, subindo. Corria nos mais curtos, para não arriscar ficar muito tempo parada e vacilar as pernas. De vez em quando, me sentia mais segura e dava uma pausa para retomar o fôlego. E quando de vez em nunca eu conseguia parar para pensar no que estava fazendo, notava que já havia ido longe demais para voltar. Como se o chão me parecesse distante e o topo fosse novamente a minha solução. Então, de repente, você apareceu. E achei que tivesse finalmente atingido meu objetivo e a partir de então tudo fosse deixar de parecer tão obscuro. Você estendeu a mão pra mim, eu te alcancei, joguei o corpo para trás e me entreguei. Agora tinha alguém para me segurar se eu tropeçasse, para me orientar se eu me perdesse e para me incentivar se eu pensasse em sentar ali mesmo e desistir. Quando me dei conta, nossas mãos não se tocavam mais, você já parecia um ponto perdido em algum lugar em que nunca cheguei, enquanto eu sentia o vento gelado da queda sem proteção e ansiava por novamente retornar ao ponto de onde nunca deveria ter saído.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ano que vem.

Pois é. E foram cinco anos nessa vida enganada. Aceitei sua proposta para tentar garantir minha liberdade. Achava que fosse essa talvez a última chamada para o futuro. Não que no início não amasse. Amei. Amei demais até. Amei o início, amei o que vi, amei vários no caminho. Talvez por motivos que nunca admita de tão óbvios que de repente perderam o sentido. Uma dívida que não precisava ter assumido, mas que decidi encarar por simplesmente acreditar não haver outra saída. Precisava ser livre. 

Quem sabe se eu tivesse alguém pouco mais forte ao meu lado para me segurar o braço e dizer que talvez fosse precipitado demais decidir naquele momento. Acontece que a pessoa mais forte naquela época era eu mesma em pedaços. É triste, mas essa vida é minha, lhe peço perdão. Se eu não vivê-la, quem terá o direito de fazê-lo?

Se não inspirar sozinha, expirar meu ar, o que sai de mim, o resultado das minhas sinapses, sintaxes, osmoses e mesóclises, quem poderá? Se eu não digerir o alimento que escolhi engolir, mas uma farinha sem cor, gosto, nem vida, que energia será essa a me preencher? E se eu não amar o que me move, se não puder me admirar, mas tiver que me contentar com a satisfação daqueles que, se me amam, me condenam? 

Não sei se posso ser completamente eu. Sei que não sou exatamente eu. E me ameaço diariamente a uma condenação unânime e sem recursos em que sou meu próprio júri, meu juiz e meu comparsa no banco dos réus. E penso quantos dias mais permanecerei encarcerada em minha própria vida e inerte ao mundo que me engole sem piedade. Que me deixa à margem das minhas decisões e me pressiona cada segundo mais tentando fazer com que eu me dê conta de que estou morta em vida e que dentro de mim urge uma enorme vontade de viver essa vida anestesiada que já vejo sem amor.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

tá, tudo bem.

Se eu tivesse acordado mais cedo, talvez tivesse conseguido alcançar seu pensamento. Poderia ter sido um pouco cedo demais, para os dias comuns, mas, para nós, atipicidade é só mais um nascer do sol.

Seria menos doloroso não saber que aquele era o nosso último bom dia. Sem beijo de despedida, sem aceno de adeus. Poderia ter inspirado uma vez mais os fios de cabelo perdidos na sua nuca. Acho que teria preferido roçar meu rosto e afundar meu nariz nos cabelos do seu peito.

Ali, bem no meio onde encontro seu cheiro e gosto tanto de me aninhar. Quem sabe você não tivesse mudado de idéia? Ou não tivesse ao menos prolongado um pouco a manhã. Eu seria alguns minutos menos desilusão.

Eu te chamaria para perto e prometeria mais uma vez que tudo vai dar certo. Eu deixaria de ser tudo que eu sou, nem que fosse por um dia. 

Não usaria suas samba canção para dormir, nem roubaria seu último pedaço. Sem demoras para escolher a roupa, sem pedir para você comprar chocolate depois da meia noite. Não reclamaria que você está fumando demais, mas isso só por uma semana na melhor das hipóteses. Não ouviria mais algumas músicas só para te irritar, confesso. Não lamberia mais o sal da pipoca, nem deixaria o prato do jantar embaixo do sofá. 

Também não reclamaria do seu jeans encardido, nem das suas mensagens monossilábicas, não esqueceria de buscar a correspondência, não roubaria o edredon. Sem TPM e cólica por 3 meses. Compraria o pão todo domingo de manhã, tomaria feliz seu café ralo, não falaria que seus sapatos precisam engraxar e prometo não reclamar da comida da sua mãe.

Pensando bem. Talvez seja melhor você seguir. 
Eu não vou fazer nada disso mesmo. E sei que você gosta.