terça-feira, 26 de maio de 2009

301

Ela morava num desses prédios antigos que a gente sobe de escada e joga a chave pela janela quando chega uma visita. A sala era grande até, mas tinha muitas coisas espalhadas. A parede da esquerda era uma estante de prateleiras que ia do chão ao teto, dividindo-se entre livros, CD's, uma TV sem controle remoto, uns DVD's jogados e mais uma porrada de coisa empoeirada que a Luiza trazia das viagens. Pra eu me lembrar de todas. Ela já tinha perdido a conta do número de cidades que já tinha visitado.

Em frente, tinha uma janela dessas de abrir para o lado de fora do cômodo. Um dos vidros estava faltando um bom pedaço e ela É bom que sempre refresca. Na parede da direita se via um sofá vermelho em "L" que ficava um assento embaixo da janela. Ela disse que ali era seu canto preferido porque podia apoiar o cinzeiro e o que estivesse bebendo no parapeito de mármore enquanto assistia à TV ou via o movimento da rua.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

bom dia, Tereza

Tereza acordou finalmente. Abriu os olhos com pressa esquecendo-se de onde estava. Cheiro de mofo, álcool, fumaça e foda. Putaquepariu, Tereza! Quem é esse cara?

Começou a catar as roupas pelo carpete imundo. Caralho, cadê minha calcinha? Olhou para os lados e se perguntou como conseguiu trepar num lugar azul daquele jeito. Tudo era azul: o papel de parede rasgado, os lençóis, as flores, até o banheiro era todo azul. Porra, Tereza, isso é hora de cismar com a cor do quarto?

Estava ficando enjoada com aquele cheiro e não achava a calcinha. Foda-se, vou sem. Olhou-se no espelho e congelou. Ficou chocada com seu estado. O olho continuava preto do lápis derretido, mas agora descia pelas olheiras. Tinha umas marcas de dedos no pescoço e do lado esquerdo do rosto, de um jeito que parecia um mapa de sangue pisado. Mas que merda hein, Tereza? Haja pó pra cobrir essa porra! Tentou abaixar o cabelo, mas não deu muito jeito.

Cacete, onde foi parar minha calcinha?! Ai.

Tereza ficou na dúvida se acordava o otário ou não. Otário dormia bêbado babando no travesseiro com a bunda pro alto. Que bunda gostosa hein, Otário? Ela ficou na dúvida também se ajudava com uma grana pra pagar o quarto e tal, mas olhou em volta e pensou que, pelo azul, não ia sair tão caro assim.

Ele paga sozinho.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

mais uma dose pelamordedeus (versão Tereza)

Tereza não aguentava mais enxugar as lágrimas. Se sentia uma idiota, uma tonta. O lápis preto no olho todo borrado, um nojo. Que merda, hein, Tereza? Ele continua um babaca?

Virou o copo e pediu a 5ª dose de cachaça da última hora. Boteco barato, um calor do caralho e Tereza lá. Não desistia de se torturar. Vergonha infinita. Teimava que ainda tinha alguma coisa pra chorar de ódio. Mas não tinha. E ela transformava as lágrimas desejadas em doses e doses de cana.

Olhou pro primeiro otário que apareceu e deu pra ele. Só pra acordar de manhã com ainda mais culpa.


mi amore

Fernanda está apaixonada. Ela conheceu sem compromisso um cara com compromisso e sonhou com ele semana passada.

Ele estava deitado de bruços ao lado dela, sem camisa numa cama branca, grande e macia. O rosto virado para o outro lado, deixava virados pra ela os fios pretíssimos dos cabelos que escorriam um tanto compridos pelo travesseiro.

Ela via o sol radiante e desfilava as pontas dos dedos no sulco das costas dele até ser cerceada pelo lençol que o cobria, quando ele se virou para ela abrindo um olho de cada vez.

Até agora foi só isso que ela conseguiu e, às vezes, pensa que é melhor assim. Saber que não pode. Tocar e não pegar. Fingir que é brincadeira. Desculpas esdrúxulas. Fernanda prefere desfrutar o jogo, sem pressa para conquistar a vitória. Até porque quando alguém ganha, o jogo acaba e aí acabam também a vontade de se arrumar antes de sair, o vazio no peito quando vê e as borboletinhas no estômago que chegam a tirar sua fome.

Se ela ganhar, acabou a incerteza, a dúvida, a liberdade, o fingir que não está entendendo o que acontece, os beijinhos de canto. Tudo passa a fazer parte da realidade, surgem as dúvidas, as obrigações e os questionamentos. E, então, Fernanda não sonha mais, o desconhecido se esgota em muito pouco tempo, ela se entedia novamente e se lembra de que gosta dele, mas que também gosta de muitas outras pessoas.

mais uma dose pelamordedeus

Clarice preferiu não questionar a conta e pagar sem se preocupar em como. Amanhã eu penso nisso. Só queria sair dali. E rápido. E levantou e foi trocando as pernas até a mesa do fundo, onde ela tinha passado a noite quase toda perdida. Luiza.

Enquanto ajeitava o vestido, arrumava os cabelos e tentava achar um beck na bolsa revirada, tentava ainda decidir o que ia dizer pra ela.

sábado, 16 de maio de 2009

silencio




Hoje
Clarice precisa beber,
Tereza se cansou de enxugar as lágrimas
e
Fernanda decidiu se apaixonar.




crónica realista

En la esquina de la Rua do Ouvidor con la Rua do Carmo, hay aquel hombre que veo todos los días. En verdad, es un mendigo, quizás el más sucio que he visto en mi vida. No tiene más que cuarenta años; su pelo y su barba son largos y negros y están siempre enredados y casi no se pueden ver los hilos de tán pegajosos que son.

En frente del restaurante Bon Profit hay unos bancos verdes para sentarse. Mi mendigo pasa la mayor parte del día acostado en los bancos y creo que hay uno que le gusta más. Siempre que lo veo está fumando un cigarillo y en la otra mano sujeta otro apagado. Lo que me llama la atención es que tiene siempre una sonrisa en la cara, no tán corriente en la cara de las personas que caminan por allí. Además, parece relajado todo el tiempo, como si no tuviese que preocuparse por nada, aparte de los próximos cigarillos que fumará al largo del día.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Meursault

"Acabei por não me entediar mais, a partir do instante em que aprendi a recordar. (...)

Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia poderia sem dificuldades passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isso era uma vantagem."

O estrangeiro - Albert Camus

terça-feira, 28 de abril de 2009

ignorance is bliss

Clarice não quer saber quando vão ligar pra ela. Ela quer ficar quieta num cantinho. Pode ser embaixo do chuveiro quente no box apertado onde as lágrimas se misturam com todo o resto e ninguém pode ouvir. Melhor ainda seria ter um cantinho só pra ela. E não é que dá?

sexta-feira, 17 de abril de 2009

hoje a insônia é minha

Tereza foi se deitar com sono e uma dor de cabeça lancinante cuja razão desconhecia. Tomou uma Neosaldina e um Dorflex, pluft, num gole d'água só. Será que isso faz mal, pensou. Ficou por uma meia hora sentindo a cabeça latejar e quase se convenceu de que tinha feito merda. No final das contas, a dor de cabeça se foi, mas a insônia chegou sem pedir licença. Sem dor, sem sono.

Desistiu. Levantou, lançou um naco de queijo minas numa torrada - o estômago já começava a reclamar - e ficou olhando pela janela. E lembrou-se das coisas que estava pensando enquanto deitada na cama tentava pegar no sono.

Lá na cama incômoda, se virou, virou o colchão ao contrário - cismou que o colchão estava viciado - trocou o travesseiro de lado. Dentro em pouco, se viu pensando em sair do corpo para tentar encontrar seu apaixonado. Pensou nele, na casa e na cama dele. Sentiu até o corpo um tantinho dormente, estou desdobrando, depois caiu na real e viu que estava era tendo uns cacarecos de tanto analgésico que tomou. Estou ficando louca mesmo.

E por aí pensou mais. Pensou aquém e além. Pensou que se cansou, no filme a que irá assistir no cinema, no filho que não teve, na amiga que acha que está tirando vantagem, nos dias livres que estão por vir, nas viagens que não conseguirá fazer, nas desculpas que dará, nos abraços que ficarão guardados, nos beijos que nunca serão selados, e na porra da Neosaldina que tirou seu sono pelas próximas horas.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

sessão de domingo

Fernanda levantou ainda meio chapada e foi ao banheiro sem lembrar muito bem do que estava rindo. Quando fechou a porta, se olhou no espelho e sentiu aquele ventinho frio de fim de Outono. Lembrou-se de um filme a que assistiu, no qual uma personagem perguntava para outra se o Verão mexia com a sua libido.

Olhou bem direto sua imagem e se deu conta de como o frio a faz pensar diferente.


sábado, 11 de abril de 2009

episódio 01

Clarice acordou hoje de ressaca, com as lágrimas do sonho ainda na garganta, olhou pela janela e viu o céu. Azul. Azul sem nuvem, sem gaivota, sem barulho. Azul. Cogitou levantar e em um segundo desistiu. Pensou que era cedo demais e acabou pegando no sono.

Quando Clarice resolveu se levantar parecia ser tarde demais. E ficou sem saber o que ia fazer com tanto azul daquele céu. Aí ela percebeu que já tinha visto outros céus talvez até mais azuis do que este, mas que hoje até o esmalte das unhas dos pés parecia mais vermelho e bonito.

domingo, 22 de março de 2009

perdoando deus

" (...) É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. (...) "

04:53


Pensei em ver o sol nascer, mas fiquei com medo de ir sozinha.

sábado, 21 de março de 2009

quinta-feira, 19 de março de 2009

vou de táxi...

Aí eu fui pra Caxias hoje. Inventei de pegar um ônibus da Tijuca direto em vez de ir até o Menezes Cortes pegar a Limousine. (1 x 0) Entrei pela frente toda crente e me liguei que a roleta é atrás - ônibus intermunicipal. (2 x 0) Perguntei pro cobrador/trocador quanto tempo levava e ele: "1 hora". Beleza! ( 2 x 1) 10:30 tô lá, meio atrasada, mas tô. Paguei os R$3 do ônibus comum e sem arcondicionado, sentei no banco alto na janela e lembrei da Limousine. (3 x 1) Lembrei das granadas e mudei de idéia. (3 x 2).

Tô lá, lendo a Época, fingindo que adianta muito. De repente, olhei pros lados e pensei: "Putaqueopariu-on-co-tô?" (4 x 2) Placa: Av. Nova York. Jesus. É pior do que eu pensava. Daí vi uma loja e concluí que era algo próximo ou Bonsucesso itself. A onda Dinho começou a bater e eu pensava: "Fo-deu". Enfim, fechei a revista e tentei mentalizar a Receita Federal pra ver se chegava mais rápido. Foi quando eu vi a placa: "Vigário Geral". Morri! (5 x 2). Aí lembrei das granadas e cheguei à conclusão de que pelo menos estaria no arcondicionado. Passou mais tempo, chegamos. Peraí. On-co-tô? Isso é Caxias? Ai não gente; eu só conheço a rua da pracinha. "Moço, como eu chego daqui na Receita Federal? QUÊ? VIADUTO?!". (6 x 2) Nenhum táxi. (7 x 2) Absolutamente. NE-NHUM. Dinho me visitou novamente, saí andando, parei numa padaria e perguntei pra mulher que me mandou atravessar o viaduto.

Lá fui eu. Atravessei. Parecia que o viaduto me levava pra outro mundo, tal a diferença entre os dois lados. Foi quando eu me achei e vi a Receita! Eba. (7 x 3) Não foi tão difícil. Peraí. "Isso é fila?" Era. A fila pra pegar senha estava NA RUA. (8 x 3) Ok. 30 minutos na fila. "Ah, só tem senha pra 13:15? Não, não. Tudo bem. Que horas são? 11:22h. Não, não. Tá ótemo!" (9 x 3) Bom preciso fazer hora vou dar uma voltinha em Caxias. Uau! Sebo itinerante na pracinha de Caxias! (9 x 4) Passei pelas barraquinhas. Logo na primeira vários da Clarice por R$10, R$15. A paixão segundo G.H.. (9 x 5) Eba. Agora eu consigo ler um livro dela. Que vergonha. Vou levar uns 3 logo. Resolvi dar mais uma voltinha, vi vários outros livrinhos interessantes por ótimo preço. "Vou ao banco porque R$20 não será o suficiente". Notei o céu um tiquinho nublado e umas gotinhas tímidas começaram a fazer uma cosquinha. "Bom que refresca".

Voltei pra barraquinha inicial. "Moço, tinha um livro aqui agora pouco..." "A paixão segundo G.H.? Logo que você saiu um rapaz veio aqui e levou" (10 x 5) "QUE??? MENTIRA! NÃO É POSSÍVEL! NÃO TEM OUTRO?" "Não, era o último" (11 x 5) Meu Deus. Que mais falta me acontecer? Foi aí que começou a tempestade do século, vindo chuva e vento por todos os lados, eu com o dinheiro na mão pra pagar os outros 2 livros dela que ia levar pra compensar, tentando me proteger dos raios embaixo da tenda e não me molhar tanto.

Quando eu vi que não ia adiantar muita coisa, caí na real, aceitei o dia Maysa, parei de contabilizar (43728947239 x 5), ajudei o cara a recolher os livros quase tão molhados quanto eu, e decidi que, com granada ou sem granada, eu vou mesmo é de Limousine.

Ou então vou com a Angélica mesmo.

quarta-feira, 18 de março de 2009

ovelha negra

hoje eu descobri a existência de champanharias.

coisa chique bein.

terça-feira, 17 de março de 2009

merda

errei o link do post anterior.

mas agora corrigi.

:*)

segunda-feira, 16 de março de 2009

this is my heart

não quero

Às vezes eu me canso das pessoas. Elas se esgotam, eu me esgoto delas. Que triste. Imagine se todas as pessoas ao meu redor se cansassem de mim também?

Alô?