"Além do seu amor por Tomas, que se consumara, havia no reino das possibilidades um número infinito de amores não-consumados por outros homens.
Acreditamos todos que é impensável que o amor de nossa vida possa ser uma coisa leve, uma coisa imponderável; achamos que nosso amor é o que devia ser; que sem ele nossa vida não seria nossa vida."
E num rompante de desespero e desejo, ela se encaixou no colo dele, com as pernas dando-lhe um nó e ele, sem pensar nem por um segundo, levantou-se do sofá, com ela ainda atada a seu corpo, cravando-lhe os dedos nas coxas.
Saiu então atropelando todas as portas da casa com as costas dela, até cairem deitados na mesma posição, mas sem nunca, nunca descolarem os lábios.
Benditas coisas que eu não sei Os lugares onde não fui Os gostos que não provei Meus verdes ainda não maduros Os espaços que ainda procuro Os amores que eu nunca encontrei
A vida é curta Mas enquanto dura Posso durante um minuto ou mais Te beijar pra sempre o amor não mente, não mente jamais E desconhece do relógio o velho futuro O tempo escorre num piscar de olhos E dura muito além dos nossos sonhos mais puros Bom é não saber o quanto a vida dura Ou se estarei aqui na primavera futura Posso brincar de eternidade agora Sem culpa nenhuma
Tereza começou a se acostumar com a idéia de que nunca mais iria ter o Beto. Ele mudou-se, trocou de telefone, de corte de cabelo e de carreira. Ela continou se afundando na mediocridade que lhe sobrou por algum tempo, mas conseguiu voltar a se lembrar do que tinha feito na noite anterior.
Até que numa tarde de sábado, sem maiores pretensões, Tereza saiu para comprar uns pães na padaria, cruzou com a mãe do (futuro) filho do Beto e só voltou pra casa 4 dias depois.
Fumo quando me entedio e em outras poucas ocasiões.
Ele, claro negou a oferta e já tinha os olhos nela toda. Ela, em contrapartida, mantinha o olhar fixo, as sobrancelhas semierguidas, como se estivesse vendo muito através e além das paredes que os mantinham prisioneiros daquela tensão. Vez ou outra baixava as pálpebras em busca da caneca de café onde batia a cinza do cigarro.
E ele, com os olhos ainda nela toda, sentia o coração ser esmagado pelas duas mãos de um gigante, mas, ao mesmo tempo, tentando escapolir pela garganta afora. Fazia tanto silêncio que lhe afligia a idéia de que ela percebesse seu peito sendo espancado por dentro.
Não foi o tempo de só um, mas de três cigarros. Ela mergulhou a última guimba na caneca e jogou as pernas para o lado; plantou os pés no assento do sofá e abraçou os dois joelhos de uma vez.
Ele voltou os olhos novamente para seus pés, porque as pontas dos dedos lhe resvalaram por um milésimo de segundo. Foi aí que sentiu correr pelas costas uma gota solitária de suor gelado, que fez seu corpo se arrepiar por inteiro.
E, então, hoje de manhã, levantei num susto ainda com a sensação morna de encaixar o queixo no seu peito com você enrolando os dedos nos meus cabelos e depois escorrer pro lado sem sair do seu abraço com a minha perna enroscada na sua feito uma trança de padaria daquelas bem doces recheadas de maçã com canela.
É isso. Você tem gosto de maçã com canela e foi por isso que me dei conta de que já tinha dormido com você.
Não sou uma pessoa de muitos amigos. Não gosto muito das pessoas, elas me cansam, e isso não é novidade pra ninguém. Aqueles que resistem são vitoriosos, não porque tem a minha amizade, mas porque conseguiram superar as minhas exigências insuportáveis.
Hoje é dia do amigo. Prefiro dizer, que hoje é o dia dos vértices. Desse triângulo às vezes retângulo, às vezes eqüilátero; mas o que importa, na verdade, é que ele nunca vira uma reta. Nem um círculo. E nessa matemática vamos mantendo esse vínculo distinto.
No fundo parece que demos as mãos pra nos restringirmos às coisas que nos constroem como indivíduos e não ao que nos rodeia. O que está fora, permanece fora, não porque não importa ou porque não influencia, mas simplesmente porque não tem espaço. Porque esse triângulo é nosso. Das nossas bobeiras, idéias, putarias, sonhos, desejos, dos nossos passados, da nossa troca.
E foi tão assim, sem querer, que quando vi, já não tinha mais jeito, não dava mais pra sair.
Um post para os vértices, representando, hoje, todos os amigos de sempre.
Era só mais um dia ordinário na vida de Clarice. Deixou a Bia na casa do irmão e seguiu para o trabalho.
Foi antes do chá preto da manhã, quando comprava os biscoitos pra acompanhá-lo, que Luiza voltou pra sua vida. Assim, sem mais. Desenrolou o cachecol do pescoço, livrando-se dos teimosos cachos, já sorrindo pro rapaz franzino do balcão, pedindo uma média e acendendo um cigarro.
Já eram tantos anos desde aquele dia do portão, que Clarice tremeu e gelou só com a idéia de que Luiza não se lembraria dela.
Ela sentou no canto esquerdo do sofá, em cima de uma perna, a outra com a sola do pé colada no assento, catou um cigarro na bolsa, acendeu, e apoiou o cotovelo do braço direito no joelho, segurando a fumaça entre os dedos.
Ele olhou pras unhas dos pés dela pintadas de vermelho sangue, sem desgrudar os olhos, e disse surpreso Eu não sabia que você fumava.
E ela displicente Eu não fumo. Você quer um também?
Fernanda e Flavia já se conheciam. Uma inacessível. A outra inatingível.
Mas teve um dia em que Fernanda se entregou, perdeu o juízo, sem motivo aparente ou sem precedentes, descobriu que amava Flavia. Não era só uma curtição de bebedeira, ou uma sensação diferente. Ela queria ficar junto, andar de mãos dadas na rua, dar beijo na praça e tomar uma média na padaria. Ela queria dormir grudado, acordar embaixo da coberta, dividir os pijamas e fazer picnic.
A Fernanda não escolheu o melhor jeito de contar isso pra ela, mas, no final, de certa forma, até que funcionou. A Flavia foi pra parede, com as mãos da Fernanda grudadas entre ela. Não sabia se tentava prender a outra ou se se segurava pra não cair.E tudo veio como uma avalanche e elas lá no topo de mãos dadas, só olhando.
E dias depois, a Fernanda recuou e a Flavia cedeu, se esqueceu de todo o resto, e só se ouviam os corações descompassados que quase estouravam e afogavam as duas de dentro para fora.
Então, um dia, a Flavia decidiu que não ia se decidir e resolveu que não ia continuar. Ela preferiu enganar todo mundo, ela e a Fernanda, e tomou sua decisão. E Fernanda não entendeu, não aceitou, chorou e não dormiu por dias seguidos. E a Flavia plácida e impávida, não mexia um músculo do rosto.
A Flavia voltou pra realidade dela e a Fernanda mudou de realidade.
Preferiu uma barra de chocolate com avelãs, mais confortante pro início de noite fria.
Chegou. Jogou o casaco no encosto da cadeira e tirou os tênis usando os próprios pés. Pegou um copo d'água gelada e virou quase num gole só.
Quando finalmente se jogou no sofá, apoiou os pés numa almofada e notou que uma das meias tinha uma mancha escura.
Preciso parar um pouco. Talvez de querer ser todos e não ser nenhum. De parar pra pensar em tudo e tentar achar motivos para não pensar em nada. Parar de me preocupar com o que já passou e dar valor ao que vivi. E não foi pouco. Mas quando tento me lembrar, acho tudo tão distante, que quase não vejo sentido para a maioria das coisas.
Como é chato lembrar só dos primeiros. Primeiro dia na escola, primeiro beijo, primeira transa, primeiro porre, primeiro fora, primeiro salário, primeiro amor.
Aí chega uma hora, que a gente já fez tanta coisa, que começa a repetir. Primeiro dia na escola nova, primeiro beijo ralado, primeira transa com mulher, primeiro porre com amnésia, primeiro fora-fossa, primeiro salário de férias.
Pois é. O amor continua sempre sendo o primeiro, toda vez que a gente esbarra com ele.
E, então, Tereza descobriu quem é o motivo dos carinhos do Beto.
Ficou louca, socou as paredes, virou noites em lugares que nem lembra, tentando fugir da realidade que a engolia. Ela se meteu em todas as roubadas, em milhares de furadas, fingiu pros outros e pra si mesma. Muitas vezes quase acreditou.
No entanto, só ela sabe o esforço que fazia para se sentir acolhida ao lado de tantos outros caras.
Ela fazia isso pra se convencer de que alguém também lhe dava carinho. Ela fez isso diversas vezes e só ela sabe o que era chegar em casa, depois de uma noite de trepada, e chorar baixinho, fingindo não se importar com o Beto na cama com a outra e uma garrafa de vinho vazia jogada no chão.
Ela sofria porque sabia que nada que fizesse mudaria o fato de que ela não era amada por mais ninguém.
Clarice chegou com o raio de sol e com uma garoa fina que a acompanhou em todo o caminho para casa. Subiu os degraus da entrada com cuidado e abriu a porta com as chaves que levava agarrada nas mãos. A escada nunca lhe pareceu mais longa, nunca deu tempo de pensar em tantas coisas num trajeto sempre tão mecânico.
Secou os pés no capacho que lhe dava as boas-vindas, enterrou os anéis de cabelos atrás das orelhas, reparou que estava sem um dos brincos, secou o rosto e ainda hesitou por alguns segundos em enfiar a chave na porta. Girou com cuidado a fechadura enferrujada e empurrou a porta sem pressa. Conseguiu não fazer barulho até tropeçar na ponta do tapete enrolada perto do sofá.
Passou pelo corredor, as pontas dos pés flutuando rangendo os tacos. Entrou no quarto, jogou os sapatos embaixo da cama, deslizou por baixo dos lencóis gelados e deitou-se de costas para Gabriel. O frio de seu corpo fez com que ele se mexesse um pouco, mas não o despertou; foi o suficiente para ele saber que ela estava ali.
Clarice não conseguia pregar os olhos. Tentava esconder as mãos ainda úmidas da garoa embaixo do travesseiro ou entre as pernas.
Pensou no homem de calças compridas abrindo a padaria, no gari tentando descolar o cartaz do poste de luz, na senhora encolhida passeando um cão com roupa e sapatos agarrada a um cigarro amassado de filtro amarelo e nas mãos pequenas e brancas de Luiza passeando no braço do sofá vermelho até encostarem nas suas.
Fernanda voltava pra casa, domingo à noite, nada absolutamente para fazer. Nas ruas ao redor, duas igrejas, cinco botequins, uma sorveteria e uma locadora. As pessoas andando sem notar que as luzes aos domingos ficam sempre mais amareladas e, meio sem rumo, ia pensando se pedia uma casquinha de creme na sorveteria.
Quando a Tereza conheceu o Beto ela não era assim.
Aliás, quem nunca teve um Beto na vida?
Então a Tereza conheceu o Beto. E ela não era assim. Ela tinha o maior sorriso do mundo e gostava de abraçar as pessoas. Gostava de tocar violão sozinha no quarto e de comer brigadeiro na colher. Todo mundo queria a Tereza e a Tereza não queria ninguém. E o Beto ali.
Um dia Tereza começou a querer o Beto, mas o Beto não podia querer a Tereza. Aí a Tereza saiu com o Carlos, com o João, com o Leo e com o Guilherme, e nem sabia por onde o Beto andava.
No fim, a Tereza ficou com o Beto, depois não mais, porque foram uns tontos. A Tereza sempre achava que os outros eram mais carinhosos que o Beto, e o Beto sempre achava as outras simplesmente as outras.
Aí um dia a Tereza viu o Beto com outra e achou que ele era o cara mais carinhoso do mundo. O Beto olhou pra Tereza e achou que a Tereza agora fazia parte das outras.
Ela morava num desses prédios antigos que a gente sobe de escada e joga a chave pela janela quando chega uma visita. A sala era grande até, mas tinha muitas coisas espalhadas. A parede da esquerda era uma estante de prateleiras que ia do chão ao teto, dividindo-se entre livros, CD's, uma TV sem controle remoto, uns DVD's jogados e mais uma porrada de coisa empoeirada que a Luiza trazia das viagens. Pra eu me lembrar de todas. Ela já tinha perdido a conta do número de cidades que já tinha visitado.
Em frente, tinha uma janela dessas de abrir para o lado de fora do cômodo. Um dos vidros estava faltando um bom pedaço e ela É bom que sempre refresca. Na parede da direita se via um sofá vermelho em "L" que ficava um assento embaixo da janela. Ela disse que ali era seu canto preferido porque podia apoiar o cinzeiro e o que estivesse bebendo no parapeito de mármore enquanto assistia à TV ou via o movimento da rua.
Tereza acordou finalmente. Abriu os olhos com pressa esquecendo-se de onde estava. Cheiro de mofo, álcool, fumaça e foda. Putaquepariu, Tereza! Quem é esse cara?
Começou a catar as roupas pelo carpete imundo. Caralho, cadê minha calcinha? Olhou para os lados e se perguntou como conseguiu trepar num lugar azul daquele jeito. Tudo era azul: o papel de parede rasgado, os lençóis, as flores, até o banheiro era todo azul. Porra, Tereza, isso é hora de cismar com a cor do quarto?
Estava ficando enjoada com aquele cheiro e não achava a calcinha. Foda-se, vou sem. Olhou-se no espelho e congelou. Ficou chocada com seu estado. O olho continuava preto do lápis derretido, mas agora descia pelas olheiras. Tinha umas marcas de dedos no pescoço e do lado esquerdo do rosto, de um jeito que parecia um mapa de sangue pisado. Mas que merda hein, Tereza? Haja pó pra cobrir essa porra! Tentou abaixar o cabelo, mas não deu muito jeito.
Cacete, onde foi parar minha calcinha?! Ai.
Tereza ficou na dúvida se acordava o otário ou não. Otário dormia bêbado babando no travesseiro com a bunda pro alto. Que bunda gostosa hein, Otário? Ela ficou na dúvida também se ajudava com uma grana pra pagar o quarto e tal, mas olhou em volta e pensou que, pelo azul, não ia sair tão caro assim.
Tereza não aguentava mais enxugar as lágrimas. Se sentia uma idiota, uma tonta. O lápis preto no olho todo borrado, um nojo. Que merda, hein, Tereza? Ele continua um babaca?
Virou o copo e pediu a 5ª dose de cachaça da última hora. Boteco barato, um calor do caralho e Tereza lá. Não desistia de se torturar. Vergonha infinita. Teimava que ainda tinha alguma coisa pra chorar de ódio. Mas não tinha. E ela transformava as lágrimas desejadas em doses e doses de cana.
Olhou pro primeiro otário que apareceu e deu pra ele. Só pra acordar de manhã com ainda mais culpa.