quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

até então

Ela sabia. Sabia que se casaria com ele, desde aquele domingo, Iansã em ebulição. Achou engraçado o jeito que ele fingia dançar, meio encabulado, meio desajeitado, quase desengonçado. E sorria, como sorria.

Ele sabia que se casaria com ela. Enamorou-se por seus tornozelos com pingentes. Desde aquele início de noite, de quase temporal. Ela tinha o sorriso mais bonito que ele já vira. E descobriu que já era apaixonado por ele mesmo antes de vê-lo pela primeira vez.

manual de boas maneiras

Me beija. Na boca. As mãos. A nuca. De frente. De lado. De manhã. Na cama. No canto da sala. No tapete. Entrando no cinema. Saindo do motel. Caminhando na praia no final do dia. Antes de dormir. Depois do baseado. Com gosto de café. Me abraça. Quando eu sorrir. Sempre que eu chorar. Se sentir vontade. Antes de sair. Embaixo do lençol. Depois do futebol. Segura minha mão. Desliza os dedos nas minhas costas. Até o cóccix. Eu gosto. Pode ser também cafuné de pé. Beijo de esquimó. Piscadinha de longe. Só pra mostrar que está ali.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

de mãos dadas

Fernanda achou estranho pensar nele antes de dormir. Mal podia esperar para a hora que lhe entregaria o pacote. Ela ficava imaginando o que ele traria dessa vez.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

vou festejar

Todos os dias desse ano. Os bons e os ruins. Os curtos e os longos. Vou festejar todas as festas, sorrisos, beijos e carinhos. Todas as lágrimas, angústias e saudades. Brindar todos os encontros programados e mais ainda os inesperados. Rir de todas as mágoas. Chorar de todas as bençãos.

Renovação total. Mudanças, desafios, dúvidas, lições pra encararar mais um turno. A ilusão de um ano novo que ajuda no reinício, motiva e inspira.

Vou festejar então.
Por ter experimentado a vida e a morte.
Por ter conhecido pessoas incríveis.
Visto lugares maravilhosos.
Por ter reencontrados sentimentos esquecidos.
Pessoas que estavam tão perto e tão longe.
Por ter conhecido a felicidade em estado bruto.
Por ter me decepcionado.
Mais uma vez e sempre.
Por ter me apaixonado, mais de uma vez.
Por estar apaixonada.
Por estar amando.
Por estar vivendo.
Vou festejar e chorar nesse fim de ano.
E me lembrar de tudo o que senti, provei, aprovei e reprovei.
E vou festejar tudo que ainda está por vir e o friozinho na barriga que dá não saber exatamente o quê.

2010.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

flor

Quando Clarice não achava possível que pudesse existir algo assim, descobriu que havia alguém além dela que podia entender o quão chato é ter que se repetir. Mais ainda, como as pessoas podem se tornar tão incômodas e irreconhecíveis de um dia para outro, como se falassem um idioma desconhecido e impossível de ser traduzido. Pela primeira vez, reconheceu em outra pessoa o desfrute da conquista e a repulsa ao prêmio vencido. Aliás, há de ser ressaltado: quanto mais árduo o combate, maior a indiferença após a vitória.

Não obstante o falatório geral, não houve santo que tirasse da cabeça de Alice que as histórias que corriam por aí tinham um quê de mal contadas. E, então, descobriu que não era bem assim que a banda tocava. Literalmente. Ademais, em favor das duas e em desfavor do restante, encontraram-se em uma sintonia talvez inédita. Três passos para frente, um para trás, sempre com um pézinho fincado em terra firme, foram aos poucos aparando arestas invisíveis. Quando se deram conta, passaram a confidenciar o que até então foram levadas a crer serem banalidades.

Clarice e Alice.
Não têm paciência para a inércia, mas muitas vezes se acham incapazes de sair dela.
Não sabem se compram uma TV ou se andam de bicicleta.
Juram que lealdade e fidelidade não são a mesma coisa.
Têm vontade de sair correndo quando ouvem uma música que amam.
Querem ficar sós, mas se sentem como um cão sarnento por acharem que não têm amigos.
Se apaixonam rápido e se desapaixonam mais rápido ainda.
Fazem as pessoas se apaixonarem por elas. E juram que não é por querer.
Provocam amor e ódio simultaneamente.
Estão sempre em ponto de ebulição.
Detestam o óbvio.
Atraem-se pelo excêntrico.

Clarice e Alice.
Separadas no nascimento?

(F)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

dois cafés com açúcar

Fernanda andava distraída pelo centro da cidade, o olhar velado pelo hábito. Olhou e não viu. De repente, voltou atrás. Virou para o lado direito e entristeceu ao ver o bar em obras. Chegou a por a mão na bolsa à procura do telefone, os dedos coçando para discar para ele, mas não podia.

Era prali que eles fugiam depois do almoço, tomavam um café requentado que ele teimava em dizer que era o melhor dos arredores e fumavam um ou dois cigarros, quando tinham um pouco mais de tempo. Falavam sobre tudo, sobre nada, se amavam e se odiavam.

Foi ali que ela se sentou pela primeira vez com ele, quando ainda nem sabia andar pelo centro. E deu uma tristeza saber que além deles, o bar também não iria mais existir, não da mesma forma que antes.

Ela se deu conta, então, de que fotografa lugares por onde passa, guarda reportagens que lê, decora letras de músicas inteiras, compra livros e assiste a filmes sempre que tem vontade de estar com ele, numa tentativa vazia de compartilhar sozinha um momento deles dois.

Uma maneira leviana de matar as saudades.

E de sentir, por um segundo que seja, aquela completude que só ele proporcionava.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

por onde anda minha Tereza?

Tereza não acredita nas coisas que ele diz. Ainda não tem certeza se faz isso por não querer aceitar que ele é mesmo diferente dela, por achar que ele é ainda muito novo ou porque talvez ainda não tenha podido ser ele mesmo. Amarras das quais se livrou há tanto tempo que já não se lembra mais de como era ter que se preocupar com o que os outros pensam.

Ela busca no desvio do olhar que ele dá quando se encabula uma nesga de verdade. Acha. E vê que ele se desconcerta, que ela o faz cair desse pedestal que ele construiu para ser notado, mesmo que somente pelos espelhos que projeta de todos os lados.

Tudo que ela pensa é em como ele seria mais alto e mais bonito daqui de baixo. Mais verdadeiro e menos vulgar. Menos forçado, menos banal.

Tereza gosta do jeito que ele morde o lábio de baixo quando pensa em beijá-la. Ela sempre pisca de leve o olho esquerdo só pra ele se certificar de que ela o entendeu. Ela gosta da virilidade do corpo jovem, do jeito sem jeito que ele reage quando eles se esbarram, jamais sem querer. É isso.

Tereza adora o jeito como eles fingem coincidências.

domingo, 25 de outubro de 2009

samba e amor

Fernanda ouvia o samba se esvair pelas escadas enquanto tentava encontrar uma resposta para a garganta entalada que já sentia há dias. Por um segundo, conseguiu se sentir livre novamente, como já não se sentia há muito tempo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

o meu amor



O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

domingo, 4 de outubro de 2009

detalhes

O que a Fernanda mais gostava na Flavia era o jeito que ela fingia não entender quando a Fernanda dizia que a amava. Fernanda gostava ainda mais quando ela tentava prender o sorriso e, quando não conseguia, punha a mão na frente da boca, como se conseguisse esconder como os olhos se fechavam e as pregas que apareciam ao redor deles. Ela adorava quando a Flavia usava pijamas de flanela e meias. Quando ela dizia um puta palavrão, ficava vermelha e pedia desculpas depois.

Apaixonaram-se pelas mãos umas da outra. Talvez um pouco de suas personalidades estampadas, ou, quem sabe, um fetiche totalmente inconsciente. Mas, com absoluta certeza, de tal modo que toda vez que segura a mão de uma mulher, lembra-se das mãos brancas de Flavia e de como se encaixavam nas suas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

the killer in me is the killer in you

01 de outubro de 2009






Achei meu primeiro cabelo branco. E tenho testemunha.






versículo vigésimo segundo

"Cristiana diria: estou apaixonada por você. E o que Helena quis dizer - algo que Cristiana acha que entendeu, mas não - é: eu não sei o que faço afetivamente; porque, afetivamente, sou uma ameba; e vou fazê-la sofrer por causa disso."

"O efeito Urano" - Fernanda Young

Acabei. E como disse pra Luh: ainda não sei se gosto dela ou se sinto asco e vergonha de todos os episódios patéticos pelos quais todo mundo (inclusive eu, claro) já passou.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

21 andares

Tereza dirigia como uma louca, atravessou o túnel aos berros no celular, os cabelos voavam cobrindo-lhe o rosto, passava a marcha com a mesma mão que segurava o cigarro. Do outro lado da linha Cesar gaguejava, ouvia os gritos dela misturados com o som da chuva e do motor dos carros que ela cortava.

Quando finalmente o barulho diminuiu, Tereza já estava com o indicador direito colado na campainha, como se para todo o prédio ouvir. Ele abriu a porta ainda com o telefone na mão, sem camisa, olhando pra ela, os cabelos embolados, a blusa branca manchada da garoa, pedindo permissão para entrar. Ele lhe deu passagem e perguntou se ela queira uma água.

Ela sentou no sofá e, bem Tereza, puxou um assunto aleatório. Ele prosseguiu oferecendo um pedaço de um doce amarelo e foi esse o dia em que Tereza comeu pamonha pela primeira vez. E na verdade não gostou. Então, de repente, sem nem se lembrar o porquê, voltaram a discutir. Ela chegou a sair porta afora, mas ele, num puxão pela cintura, a trouxe de volta já com a boca colada na dela. Quando voltaram para o sofá, ele já tinha as mãos percorrendo-lhe as coxas por baixo da saia curta.

Eles treparam na sala, passaram pelo chão do corredor e terminaram em cima da cama, com Cesar aos prantos, perguntando como ela tinha coragem de fazê-lo sentir aquilo tudo e depois se despedir. Tereza já pegava a chave do carro e procurava um dos brincos que perdera no trajeto. Beijou-lhe as lágrimas, enxugou-lhe os lábios, mergulhou o nariz em sua nuca, ainda agarrada aos fios escuros que a percorriam, desculpou-se mais uma vez e bateu a porta em suas costas, ainda ouvindo os soluços que atravessavam a parede. Desceu o elevador, o rosto pálido em choque.

Terminou a noite, totalmente perdida, com as pernas abertas pro Beto, imaginando quem seria o pai se a pílula falhasse.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

baby goodbye

Fernanda o desejou mais uma e talvez pela última vez, depois de tanto tempo. Chegou a imaginá-lo na cama suada virando-se de lado, de frente para a parede, pensando em como a ama e a vendo deitada, completamente apaixonada pelo outro agarrado em sua perna, enquanto fuma um cigarro antes de dormir, para ser acordada pelos dias que nunca imaginou que fosse viver.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

em suma

Para si mesma,
Clarice é feliz,
Fernanda é livre,
Tereza é indiferente.

Para a família,
Clarice é mãe,
Fernanda é forte,
Tereza é um caso perdido.

Para a sociedade,
Clarice é convencional,
Fernanda é excêntrica,
Tereza é uma ameaça.

Para o analista,
Clarice é uma fraude,
Fernanda é uma farsa,
Tereza é um cristal.

No amor,
Clarice acha que sabe,
Fernanda sempre se entrega,
Tereza tomou horror.

Pela manhã,
Clarice não gosta de sexo,
Fernanda não gosta de acordar só,
Tereza está indo dormir.

Na cama,
Clarice fecha os olhos,
Fernanda olha nos olhos,
Tereza olha para o espelho.

Na realidade,
todas elas,
e todas as outras,
numa

só.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

pra cima de mim?

"Eu não entendia, não entendo e nunca poderei entender - veja bem, ela dizia me amar. Sim, claro, eu sou uma doente mental que acredita no que nos dizem quando querem nos comer."

"O efeito Urano" - Fernanda Young

*ainda na página 19 e mal posso esperar pelo final

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

ponto final

Tereza entrou no ônibus ajeitando a saia e tropeçou no último degrau da escada. Pagou a passagem, passou a roleta e dali mesmo o viu. Em duas piscadas traçou toda a estratégia para se fazer notar por ele. Sentou no banco baixo em frente ao dele, sempre no corredor; e ele na janela.

Ainda sentia o hálito quente do beck que tinha acabado de fumar e a respiração dele exalando álcool soprar no seu pescoço. Começou a procurar as chaves, adiantando o trabalho de achá-las na porta de casa.

Apesar do ar condicionado, ela podia sentir o cheiro da chuva que se aproximava e por um segundo, naquele dia infernal, encostou a cabeça no banco e suspirou.

Ele olhava ela de cima, podia ver seus tornozelos roçando uns nos outros e uma pétala de rosa vermelha que vazava atrás da orelha direita, escorregando pela nuca, se escondendo entre os fios de seus cabelos. Não sabia se o perfume era dela ou da flor e sentiu-se um pouco alto demais quando se viu pensando nisso. Sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo inteiro e apertou os joelhos com as mãos geladas.

Ela ainda ouvia a música que tocava no rádio quando passou pelo bar em frente ao ponto e conseguia ver seu reflexo pelo vidro da janela, fingindo que não a notava. Começou a estalar os dedos, primeiro pressionando os indicadores com os polegares da mesma mão e nesse movimento ele pôde ver as três alianças idênticas que ela usava em um só dedo da mão esquerda. Os três homens da minha vida, meu pai e meus irmãos, como um dia ela lhe contaria.

Enquanto o ponto final se aproximava, Tereza começou a vasculhar a bolsa, sacou uma boleta de cartão de crédito, escreveu seu telefone nela. Levantaram-se; ele primeiro, ela, logo em seguida; e assim que a porta abriu, guardou o papel no bolso de trás da calça dele.

E antes que chegasse na porta de casa, junto com as gotas grossas de chuva que começavam a lhe molhar os pés, ouviu pela primeira vez a voz do Beto, do outro lado da linha.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

clarice (a lispector)

Semana passada de bobeira zanzando pelo site do Rio Show, encontrei essa peça. Ali, logo do lado do escritório, no CCBB. Meia entrada, 5 pratas.

Ontem estava aqui e mandei esse conto pra Fernanda. Qual foi minha surpresa ao reconhecermos o mesmo bendito e adorado conto na peça hoje.

"(...) Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe."

"Perdoando Deus" - Clarice Lispector

'Simplesmente eu. Clarice Lispector' @ CCBB, adaptação, direção e interpretação: Beth Goulart, 4ª a dom, 19h, até 04 de outubro, 3808-2007.
(chegue cedo, hoje quase não conseguimos ingresso)