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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

ante o colapso final a vertigem.

E se eu pudesse te chamar de minha o que seria essa dor? E se eu soubesse como levar essa sina esse tormento de vida que me invade, me condena? Saberia então o dia de amanhã e a vida que deixaria de ser minha, passaria a ser nossa, na contramão do mundo e estaria a mercê das opções que nos proporciona esse microcosmo que inventamos só para nós dois. Ah, como eu seria feliz em viver deitado num divã de veludo a te procurar por todos os cantos da casa com o olhar e te seguir sem me mover um passo porque não é preciso, simplesmente não precisamos mais do que um copo d'água pela metade para inventarmos a nossa realidade conforme o nosso humor. E seria completo em dividir esse desespero que é não me reconhecer e desconhecer o que tenho dentro de mim para sempre sendo isso que chamamos de nós dois e que você teima em chamar de um só. Deixa eu dizer que às vezes eu queria não ser nada, mas tão somente um sopro de brisa fresca para te iluminar o sorriso. Quanto desespero em vão, eu não choro mais. Já não tenho mais espaço para tanta mágoa e cada lágrima que sai traz de volta uma tormenta de dias já idos e vividos e teimados em reviver-se. Tanta coisa que eu já não consigo mais dizer o que é meu e o que inventei. O que eu realmente fiz porque queria e o que gostaria de ter feito para te abrir uma ferida e queimar o pouco que ainda sobrou de inteiro em você. 

vai sem duvidar, mas, se ainda faz sentido, vem.

Demorei tanto tempo para subir a escada que nem me dei conta de quão alto havia chegado.  Subi o primeiro degrau e logo fiquei um pouco preocupada por me parecer um trajeto íngreme demais. E para o segundo e o terceiro levaram tantos dias que pensei em desistir de me aventurar. O que me angustiava mais era o fato de que à medida que eu subia, notava como os degraus se tornavam cada vez mais estreitos, de modo a quase não caberem os dois pés lado a lado. Mas eu fui. Subindo, subindo, subindo. Corria nos mais curtos, para não arriscar ficar muito tempo parada e vacilar as pernas. De vez em quando, me sentia mais segura e dava uma pausa para retomar o fôlego. E quando de vez em nunca eu conseguia parar para pensar no que estava fazendo, notava que já havia ido longe demais para voltar. Como se o chão me parecesse distante e o topo fosse novamente a minha solução. Então, de repente, você apareceu. E achei que tivesse finalmente atingido meu objetivo e a partir de então tudo fosse deixar de parecer tão obscuro. Você estendeu a mão pra mim, eu te alcancei, joguei o corpo para trás e me entreguei. Agora tinha alguém para me segurar se eu tropeçasse, para me orientar se eu me perdesse e para me incentivar se eu pensasse em sentar ali mesmo e desistir. Quando me dei conta, nossas mãos não se tocavam mais, você já parecia um ponto perdido em algum lugar em que nunca cheguei, enquanto eu sentia o vento gelado da queda sem proteção e ansiava por novamente retornar ao ponto de onde nunca deveria ter saído.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ano que vem.

Pois é. E foram cinco anos nessa vida enganada. Aceitei sua proposta para tentar garantir minha liberdade. Achava que fosse essa talvez a última chamada para o futuro. Não que no início não amasse. Amei. Amei demais até. Amei o início, amei o que vi, amei vários no caminho. Talvez por motivos que nunca admita de tão óbvios que de repente perderam o sentido. Uma dívida que não precisava ter assumido, mas que decidi encarar por simplesmente acreditar não haver outra saída. Precisava ser livre. 

Quem sabe se eu tivesse alguém pouco mais forte ao meu lado para me segurar o braço e dizer que talvez fosse precipitado demais decidir naquele momento. Acontece que a pessoa mais forte naquela época era eu mesma em pedaços. É triste, mas essa vida é minha, lhe peço perdão. Se eu não vivê-la, quem terá o direito de fazê-lo?

Se não inspirar sozinha, expirar meu ar, o que sai de mim, o resultado das minhas sinapses, sintaxes, osmoses e mesóclises, quem poderá? Se eu não digerir o alimento que escolhi engolir, mas uma farinha sem cor, gosto, nem vida, que energia será essa a me preencher? E se eu não amar o que me move, se não puder me admirar, mas tiver que me contentar com a satisfação daqueles que, se me amam, me condenam? 

Não sei se posso ser completamente eu. Sei que não sou exatamente eu. E me ameaço diariamente a uma condenação unânime e sem recursos em que sou meu próprio júri, meu juiz e meu comparsa no banco dos réus. E penso quantos dias mais permanecerei encarcerada em minha própria vida e inerte ao mundo que me engole sem piedade. Que me deixa à margem das minhas decisões e me pressiona cada segundo mais tentando fazer com que eu me dê conta de que estou morta em vida e que dentro de mim urge uma enorme vontade de viver essa vida anestesiada que já vejo sem amor.

domingo, 25 de maio de 2008

in the back seat

(00:50) Deixa de besteira vai... Eu sei que você não tá falando sério. Volta aqui... Abre os olhos vai... Pára de besteira. Você disse que tinha uma coisa importante pra me contar. Hein? Eu tô aqui. Aonde você vai? Tô ouvindo um barulho estranho... Peraí!, (2:00) volta, não me deixa aqui sozinho. Tá escuro. Tá muito frio. Cadê você? Cadê a luz? Que barulho é esse? (2:29) Peraí! quem é você? Eu não sei quem você é. Sai daqui! Me deixa em paz! Sai! Sai! Me solta! Pára! Eu não quero você aqui. Traz ela de volta. O que foi que você fez com ela? Cadê? Alguém me ajuda. Tô com muito frio. Tô com sede. Não consigo ouvir nada. (03:02) Olha lá! Olha, é aquela moça ali. Chama ela, chama ela! (03:28)Volta aqui, volta... Eu prometo, eu prometo. (03:40)Não me deixa aqui sozinho. Fala comigo. Ei. Fala alguma coisa. Por que o silêncio? Deixa de besteira vai... Eu sei que você não tá falando sério... (04:09)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

então

E quando acordou de manhã já não sentia mais a raiva do dia anterior. Na verdade, o que latejava era uma vergonha absurda de tudo o que tinha dito. Da situação que criou para si mesma, que sabia que poderia acontecer, mas que por vã inocência ainda cria na possibilidade de mudar. Porque no fundo sempre soube que ninguém muda ninguém e, no entanto, insistiu em tentar, fingindo que não se incomodava, não se importava, que era superior àquilo, que tinha aprendido a lidar com tudo.

*

E quando o cachorro latiu lá fora, já sabia o que lhe esperava. Um pedido de desculpas gordo de tanto pesar, mas que já não surtiria mais efeito algum. Porque depois de tantas vezes ralar o mesmo joelho, abrindo a ferida sem mesmo curá-la, não haveria mais remédio que pudesse fechar a carne viva sangrando.

*

E quando sentiu o cheiro de café, levantou correndo da cama. Ao entrar na cozinha, a viu. Os cabelos molhados ainda pingavam na camisa que roubara caída no chão do quarto e que a engolia fazendo quase um vestido. E não esperava nada mais a não ser que ela pulasse em seu pescoço, cruzando as pernas ao redor de sua cintura, com o gosto do café melado e da manteiga que escorria do pão.

*

E quando chegou em casa quase não pôde acreditar. Os armários vazios não deixavam dúvidas de que realmente havia partido. Sem volta. Sem retorno. Sem adeus. Sem olhar de despedida. Sem gritos. Sem ofensas. Sem última transa. Sem levar os vícios, as viagens, os sorrisos e o par de chinelos verdes de que tanto gostava.

*

E quando o ano virou as lágrimas escorreram sem entender o porquê. Olhou para os lados, viu todos e não reconheceu ninguém. Talvez porque os olhos estavam turvos. Mas muito mais provavelmente porque sabia que faltava alguém que ainda iria conhecer.



quarta-feira, 21 de novembro de 2007

believe

I saw you yesterday. And the day before, and before, and before, and before. I saw you last Friday and I've been seeing you for the last 10 years. I saw you yesterday but only in my head. Maybe you were there. Because I couldn't see you with my eyes but with all the rest of my body. I saw you this night too, but in my dreams. You called me and we've talked as we used to.

I see you everyday. In my daily routine. In my clothes, my books, my cds. In places I visit. In songs I listen. In movies I watch. I pretend you are beside me and we are sharing that moment. I see you there. But you are not with me. I see you and I want to see you everyday. When I open my eyes at the very first hours in the morning and when I close them late at night. I want to see you as you really are. Every move, every touch. I want to see you not only with my eyes, but with my entire body. I want to see you again and again. I want to keep in my mind more than that smile you used to give me. That one that makes my heart so small and hot.

And why is that distance? How could you be so selfish? How can't you see all the things we're leaving behind and the ones we're missing? I knew I wouldn't stand long. That sooner or later i wouldn't handle this anymore.

Will it be fair?

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Então...

... sabe o que que é?... não me leve a mal, mas eu acho melhor a gente parar por aqui... (...) não, não... não é isso... na verdade eu não sei mesmo como explicar... (...) hmm... (...) NÃO!!! de jeito algum... o problema é comigo mesmo... é essa ansiedade que me consome... (...) eu não sei muito esperar, entende? acabo me afobando com as coisas... (...) eu sei que isso é ruim... mas não consigo evitar... eu sou assim mesmo, tento isso o tempo todo, mas é com tudo na vida, sabe? (...) ai não sei... tentar? mas isso demora... e eu não sei esperar, lembra? (...) ah, mas você não fala nada! (...) não, não, imagina! tem sido ótimo... mas é que eu acho que a gente é tão diferente... (...) como? ah não sei explicar... diferente... aquele dia do cinema por exemplo... (...) ah, aquele que eu queria ver aquele filme do Festival... (...) não, lembra? (...) isso! é... que a gente acabou indo ver aquela comédia hollywoodiana (horrorosa...)... (...) pois é... coisas tipo essa... (...) eu sei... tb adoro vc... (...) é, a gente se diverte (na cama)... (...) não, vc roncar não me incomoda (imagina!!!)... (...) olha só eu não quero a sua ajuda! eu não preciso da ajuda de ninguém! (...) é, é deve ser! sou independente demais pra vc! (...)(...)(...)(...) HA-HA-HA! muito engraçado! pior vc que não dá um peido sem ligar pra mamãe! (...) olha aqui meu bem, eu não tenho culpa se vc não é assim como eu... (...) arrogante? meça suas palavras! tá pensando que tá falando com quem? (...) é deve ser isso mesmo! (...) medo de ficar sozinha? olha só, eu não dependo de ninguém, tá? (...) hmm... (...) hmm... (...)(...)(...) ah tah, agora vai jogar na minha cara... beleza... (...) sabe o que te falta, é um pouquinho de cultura! (...) é, é isso mesmo! sinceramente eu não agüento ter que ficar assistindo tv a porra do fim de semana todo... se ao menos fosse alguma coisa de útil, mas não dá pra ficar falando de Big Brother... (...) olha aqui meu querido, Big Brother pra mim é o do George Orwell... (...) óbvio que vc não conhece... (...) pseudo-intelectual? além de tudo vc é um invejoso... (...) não, eu não to te comparando com ele não, até pq seria muito cruel da minha parte... (...) (...)(...) bom, então, resumindo, pq eu to pagando essa ligação, já deu pra ver que não tá rolando né? (...) é a culpa é minha mesmo... pq eu penso! (...) olha só, silêncio é pros fracos... (...) hmm (...) hmm (...) ouvir o silêncio? eu tenho cara de cachorro pra ouvir apito no silêncio? (...) não, eu não tenho que mudar não, se quiser mude você! (...) ué eu sou assim, muda você oras! (...) ah vc tb é assim... (...) é... até que vc não tá tão errado não... (...) hmm (...) hmm, sei...(...) não, não, claro... (...) eu entendo... deve ter sido difícil mesmo... (...) (vergonha³) (...) claro, poxa me desculpe... (...) é eu sou assim mesmo... (...) é essa ansiedade que me consome... (...) como eu dizia, o que vc vai fazer hoje à noite?

sábado, 1 de setembro de 2007

citè

Não é um homem alto. Também não chega a ser baixo; mas toca o alto da porta sem ficar nas pontas dos dedos dos pés e sem esticar completamente os braços. A boca, de lábios grossos e definidos, é bem clara, tendo quase a mesma cor da pele do resto do rosto, abriga os dentes grandes que parecem ser todos do mesmo tamanho, regulares como o teclado de um piano, e declama - Drummond - com peculiaridade e prazer. Expressa com os olhos mais que palavras e dá sentidos novos a antigos termos corriqueiros. As lentes dos óculos em retângulo, essenciais, não escondem as sobrancelhas castanho-claro da mesma tonalidade dos cabelos que já teimam em abandoná-lo. Não que isso o faça menos do que ele é, de jeito algum. Impossível haver tal harmonia sem cada detalhe que ele revela.
É um homem. Esguio e magro, revela a barriga, quase um palmo abaixo do umbigo, em um gesto distraído ao se espreguiçar. Seus braços não param um minuto e as mãos são companheiras dos olhos escuros e dos lábios claros em deixar mais óbvio o que quer dizer. São pequenas, de fato. Não bem pequenas, mas tem dedos finos e não tão longos assim. É bonito quando fala, pronuncia um "A", assim, bem aberto, e mostra a boca que abre num arco longo, marca um traço em cada lado do rosto e uma covinha acima do traço, somente no lado esquerdo. Não sei se rói as unhas. Daqui não dá pra ver. Mas que importa? Tanto faz.
Nunca está barbado. Pelo menos não nas quatro vezes que o vi, não estava. Aliás, pouco dá pra perceber de sua barba, que, ao que me parece, não pode cobrir-lhe o rosto devido às falhas. É destro, de costas largas, quadris bastante estreitos; corpo de homem. Ah, sim! Agora vejo! As unhas são bem curtas, como se fossem roídas, mas não são. São brancas, limpas e as cutículas têm uma aparência macia, bem como as palmas das mãos, que teima em exibir.
O reflexo das lentes antes não me deixavam perceber que seus olhos na verdade são verdes. Não esse verde que a gente consegue ver através. Mas um verde escuro, mais escuro que azeitona, com a íris bem marcada como com régua e compasso. São realmente expressivos e me fitam sem suspeitar de nada. Eles me encaram como se eu fosse mesmo eu, e não o que, a princípio, me interessa ser. Ele me comove com a paixão que declara, não por mim, nem por ninguém, mas por algo que parece fazer questão de deixar claro, ser sua razão de viver. Ele me dá esperanças ainda.
Não é propriamente belo. É a sua transparência em 8 horas. A sinceridade e a não-vergonha, o não ver problema em falar nada e dizer tudo o que passa pela sua cabeça sem hesitação, provocando riso e sorriso, assustando por tanta inocência. Tem manias com certeza, mas, Oxalá, são boas. Usa tudo na medida; sem exageros, cada detalhe se encaixa perfeitamente e seria um pecado que qualquer um deles fosse deixado de fora. Tudo organizado, limpo e arrumado. Muita cor, livros e som.