quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

minha cabeça trovoa. sob meu peito te trovo e me ajoelho.

não sabia o que eu ia fazer em santa cecília. só sei de um jeito de resolver isso. eu vou, algum dia, de qualquer maneira, seja em que configuração for, eu vou, eu não posso deixar de dizer o que me leva aos dias mais lindos. eram sombras entrecortadas que cruzavam e mostravam qual caminho seguir e subimos. achei que aquele caso nunca iria acabar. me lembro de trechos apenas, algumas frases soltas que amarrei de algum jeito sem pé nem cabeça, mas que pra mim conta a história que eu estendi pra tantos outros dias e não sei mais quando terminou. quando vai crescendo e tudo despenca lá do alto, eu ainda estou vendo as coisas daquela altura. eu nunca desci. não distingo chances mínimas daquele ter sido o diálogo que mudou um mundo inteiro de possibilidades. foi uma vida inteira em uma hora. um hora que passei lendo e vendo as coisas acelerarem e me vi inteira, uma coisa de não caber dentro do que a gente entende por corpo. eu olhava a luz mudar, ela aumentava, as folhas não, eram menos sombras a essa hora. fui acompanhando a claridade aumentar de frente pro seu rosto, eu gostava de ver como você sorria e faziam duas linhas embaixo dos olhos, uma em outro lugar, um vinco de cor. era discreto o jeito que você se escondia atrás dos óculos transparentes. era vidro, cuidado, subia. sabia que a maior parte do tempo líamos o mesmo trecho do livro, mas eu confesso, trapaceei. pulei uns pedaços, eu não queria esperar, eu sabia que era só. notei quando você chegou na parte que tudo começava a acontecer, a completude, o todo de novo, mas eu já sabia qual era o desfecho. de alguma forma que até hoje não sei você percebeu. percebeu que não ia continuar, porque eu não sabia mais porque estava ali. eu acho que sei, foi a hora que seu olhar baixou e você disse vamos agora. eu sei. contornos de depois são formas vivas da curva que perde os rios no encontro. são coisas que não passam de coisas outras, coisas suas, coisas minhas que parecem não deixar de insistir que o começo do vão não toca a porta. de saída, quando o dia era vivo, como o gemido do teu gozo, tua pretensão não percorria o círculo perfeito dessa redoma. a construção é firme, foi longa, pesada, invisível. peitos abertos por faca, fórceps, machado, afastador de costelas, vivos, menos que os gemidos, mais que os suspiros, mas sendo mais vivos que eu e menos silenciosos que você, assim podia. quantas folhas de parreira fazem a borda da toalha? quando cobri a mesa pra te servir, senti a lâmina me penetrar, seca, pálida e fria, alastrando em todo o meu corpo seu fel. minha boca sentia um amargo amarronzado, apimentado, me questionando. eu sou a pior coisa que pode te acontecer, eu sei, eu sou o corpo da sua matéria preferida, eu sei, eu te preencho. queria que esse dia rodasse ao contrário e que a flecha que agora fere apontasse pro fim.

domingo, 18 de janeiro de 2015

me obrigue a viver pra eu planejar.

.dava pra te ver do lado oposto.

Foram alguns segundos que me levaram para aqueles outros 30. Um pouco menos talvez. Tinha perdido segundos, segundos partidos, quentes, entre uma passada e outra, eu fui. Quando o nosso pensamento se desloca, é difícil manter uma linha reta na calçada. Às vezes pra esquerda, às vezes pra direita, paro muitas outras, desvio de buracos, merda de cachorro, pessoas, todas elas. Me obriguei a contar os segundos porque queria chegar mais rápido. E o tempo parou.

.e eu não duvidava que gostava de você.

Me lembrei de que estava apaixonada. Por alguns segundos às vezes a cabeça vira de um jeito que a gente se esquece de coisas simples. Não é o caso. Talvez eu tenha me permitido esquecer por um pouco mais que isso. E de repente tinha me esquecido por completo. Por um mundo mais emocionante, você diria. Não é tão difícil, você diria. A gente vive com medo de viver. Vive sim.

.era o movimento que sobrava pra fazer.

Ela tava suada. Saca? Foi um momento em que tudo no universo se certificou de apresentar nela certas coisas. O azul do vestido, amarrotado, uma alça quase caída, os tornozelos cobertos por canos cor de caramelo. Quem usa canos altos em dias tão quentes? A mochila, poída, me fez lembrar uma que eu tive quando ainda não te conhecia. Foi isso o que primeiro reconheci de mim em você, mas você não entendeu. Você, que não sei, nunca me reconheceu. 

.me obrigue a ficar.

Você está sempre pressupondo que ela vai evoluir pra um outro estágio. Evoluir no sentido de ir 'para' um estágio... É porque tem a ver com sexo, né, com cumplicidade. Negociar as coisas que vão acontecendo. Não é com o fim nela mesma. Se espera um outro estágio. A gente não esquece nunca o quanto é importante a gente se encontrar. Requer outros toques, outras entradas, que precisam do convívio, do convívio físico. 

.deixa a música tocar.

Essa cara de atitude é que é foda. De que vai tirar a roupa e correr pra dentro do mar, não sem antes me obrigar a fazer o mesmo. Eu fui. Não quero entrar, morro de medo, afogamento também, mas ataques de tubarões com dentes afiados principalmente. Desses que arrancam um pedaço que continuo sentindo mesmo muito tempo depois. Tem um nome pra isso. Esqueci.

.pede alguém pra te ajudar.

Lembra daquele dia que a gente *? É, aquele dia que a gente *. Como assim, você não *? Você pediu pra eu te ajudar com *. Me perguntou mil vezes se *. E depois disse que também *, não entendi porque perguntou então. De que adianta você me dizer que *, que não *, que estava *? Sério, não te * mais. 

.me obrigue a beber pra eu desmaiar.

Não lembro ainda. Só sei que foi uma coisa boba, estava segurando algo, precisou trocar de mão, um cacho fugia do emaranhado que prendia os outros tantos no alto da cabeça deixando o pescoço à mostra. O nariz arrebitado, eu me lembro, disso sim, quando sabia quantas vezes ia me perder por causa disso. Engolia, não vinha nada. Areia. Sabia que não sairia ileso daquele mergulho.

.não quero sofrer nessa promessa.

Eu não queria concordar com todas aquelas coisas. Foi só porque eu não sabia como lidar com tanta coisa junta, eu não queria fracassar em mais uma coisa. Eu queria garantir, na minha cabeça vazia, eu não queria morrer. Foi uma questão de sobrevivência, sabe? Eu não queria na verdade. Não sei mais. Acabou.

.não vai dar na mesma.


Foi o momento em que todos os fatores se alinharam. E que provavelmente a resposta dela para isso fosse, Mas eu tô toda desgrenhada. Nunca entendi essa palavra, na verdade. Eu só enxergava o significado dela. Tinha a ver com agora, tinha a ver com antes, mas nada com o depois. O depois de eu ir, o depois de agora, que não quero lembrar, não quero nada, só queria que esse momento parasse e ele parou. O conjunto foi tão impressionante. Foi o olhar dela que me pegou. Só que provavelmente foi o melhor momento. 

.pode me trancar.

E eu roubei ele pra mim.

Celo e Carol <3>

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

para todos.

sem alma
semblante
sublime
amante
amargo 
há mais
capaz
desfaz
destino
sabido
sorri
caí.
amparo
disparo
(não quero!)
me calo
me julgo
apuros
há furos
alheios
anseios
anulo.
me vingo
pingo
peço
esboço
extraio
ex maio
desmaio
esgoto
gasoso
desprezo.
amparo 
disparo
(tão caro!)
me levo
me valho
avaro
encaro
não paro.
tristeza
destreza
riqueza
destruo
concluo
quem nunca
maluca
maléfica
idêntica
autêntica
autônoma
programo
a trama
a treta
malfeita
magrela
mazela
(é dela!)
maldita.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

de dia lágrimas à noite amantes.

Moro no décimo quinto andar de um prédio de fundos numa rua embolada de outros tão altos quanto o meu. Cercado de muita gente e seus diversos e ilimitados sons, eu vivo só, nesse apartamento justo demais para duas pessoas. No caso, somos eu e meu piano que habitamos há alguns meses esses 45m². No inicio, eu me incomodava com tanta gente falando, brigando e se amando o dia inteiro; o movimento não pára nunca, é um entra e sai constante de pessoas de todas as idades e personalidades, é difícil um período de completo silêncio durante mais de uma hora. Ainda sinto falta daquele som que acontece quando nada soa ao redor; nessas horas eu consigo parar de pensar em tudo, a única coisa que me vem é que estou vivo, e regulo meu estado de espírito de acordo com a velocidade que meu coração bate, vezes mais rápido, vezes mais devagar, outras parece quase não bater. Algumas vezes, não muitas, isso acontece, entre quatro e cinco da manhã, o que me força invariavelmente a deitar com o céu claro. Isso me obrigou a instalar um blackout na janela e a usar meus tampões de ouvido para dormir, o que não é nada confortável, mas consegue diminuir os ruídos em meus sonhos. No meio da tarde, acordo e vou ler o jornal já defasado enquanto tomo café. Todos os dias eu penso, vou acordar cedo, amanhã eu quero tomar café, comer um sanduíche, estou necessitado de sanduíches, estou com desejo. Acabo sempre dormindo muito tarde e não consigo acordar; quando desperto, meu apetite já se foi, ou acaba indo embora com o cheiro de comida que se mistura pelo ar, já que é a hora regular do almoço. É no final do dia que vou sentar ao piano para agora, eu, contribuir para o caos sonoro. Em regra, toco por umas três horas sem parar, o que acredito ser bastante justo, visto que é o único momento do dia em que faço barulho. Há alguns dias, trabalhando numa peça um bocado intensa, meu punho direito reclamou e fui obrigado a parar um pouco antes. Preocupado e incomodado, fui até a janela fumar um cigarro. Era o sexto dia de chuva consecutivo, depois de quase um mês sem uma gota d'água cair do céu. Buzinas, sirenes, vozes, telefones, relógios. Apesar de estar nos fundos, estou de frente para os prédios da rua atrás da minha. Entre eles restam apenas três casas, e só uma delas serve de moradia, visto que uma virou igreja evangélica e a outra um centro de terapias holísticas. Eu vivia me perguntando como o pessoal conseguia se concentrar com a cantoria da casa vizinha, até que mês passado se mudou para o apartamento ao lado do meu uma família evangélica, com a qual inclusive já cruzei na porta da igreja, e então passei a ter minha vida embalada pelas músicas que se repetem ao longo de todo o dia, até que eles saiam para o culto. Depois de duas semanas, eu já tinha me acostumado e até estranhava o dia quando não havia ninguém em casa. Bem em frente à minha, quase todas as janelas estavam acesas; lustres, abajures e telas de TV davam ao prédio uma aparência de árvore de natal, com pisca-piscas coloridos e sincronizados, e me trouxe por alguns segundos o cheiro das rabanadas da minha avó. Exatamente na mesma altura que eu, havia acesa uma lâmpada azul, que servia de adereço para o topo da árvore de natal, bem no meio, no último andar. Era uma varanda enorme e estava escancarada apesar da chuva, provavelmente em razão do calor que fazia em contrapartida. As cortinas estavam completamente abertas e as portas de vidro me davam visão total do cômodo que devia ter o mesmo tamanho do meu apartamento. Estava completamente vazio quase: havia uma cama no canto direito, um armário na esquerda, e na parede oposta à varanda um imenso espelho. Nunca consegui entender de onde ela veio, só sei que de repente surgiu no meio do quarto já em movimento e era linda. Estava vestindo uma combinação de várias roupas, meias, um collant, uma calça por cima, algo em torno dos tornozelos, e os pés descalços. Os cabelos escuros estavam amarrados no alto da cabeça numa espécie de coque que deixava escapar alguns fios na nuca e na frente do rosto. Os braços se moviam suavemente em contraste com os passos firmes e os ângulos obtusos que faziam as pernas. A mesma coreografia foi repetida cinco vezes, quando ela finalmente, exausta, parou. Alguns segundos depois, a porta se abriu e sua mãe lhe chamou com o olhar. Já era hora do jantar provavelmente e ela precisava ir. A luz se apagou, mas eu ainda fiquei ali por uma meia hora. No dia seguinte, acordei aflito, de um sonho do qual não conseguia me lembrar, mas com a pele ainda vibrando de tão real. Demorei alguns minutos para conseguir me mover, me levantei e fui fazer o café. Ainda chovia lá fora, mas menos do que no dia anterior; não ouvia nenhum som de rádio, a vizinha devia ter ido ao mercado ou algo assim. Fui até a porta pegar o jornal, mas não havia nada lá, o porteiro provavelmente esqueceu ou deixou no apartamento errado. O piano ainda estava aberto, me sentei na banqueta e olhei para a janela. Do outro lado, tudo estava fechado, agora vejo que não são cortinas, mas persianas também azuis que destoavam do dia cinza. Como um relâmpago fui atravessado por imagens de início turvas e desconexas que aos poucos foram se organizando não pelos movimentos mas pelos sons. Toquei durante cinco minutos sem parar, estava pronto o primeiro movimento. Ele se repetiu nota por nota durante uma hora, quando por fim consegui lembrar de todos os detalhes da coreografia com que sonhei, a mesma embalada na outra noite pela melodia das gotas caindo nos telhados. Meu corpo todo queimava como no sonho, um calor inexplicável, a temperatura havia caído vertiginosamente durante à noite. Sem mudar nenhuma nota, escrevi tudo para ter certeza de que estava pronto. O dia se arrastava e então me dei conta de que o sonho havia me acordado muito mais cedo do que o normal, mas a essa hora não estava com nenhum apetite. Às cinco da tarde a luz já estava mais baixa do que de costume, a chuva havia diminuído consideravelmente, mas ainda havia muitas nuvens no céu. Às seis já era noite e as luzes começaram aos poucos a serem acendidas. Então, ela chegou. A roupa úmida da garoa, os cabelos agora soltos, passavam um pouco dos ombros. Ela deixou tudo em cima da cama e saiu do meu campo de visão. Quando voltou, havia se trocado e o coque estava lá novamente, dessa vez impecável. Corri para o piano e ao primeiro movimento, comecei a tocar. Seu rosto mudou imediatamente a fisionomia, os olhos se cerraram e a boca se abriu de leve involuntariamente. Os braços ainda eram suaves, as pernas um pouco mais obtusas, o corpo ia ao chão muitas vezes e a cabeça girava e voltava ao mesmo ponto numa velocidade que meus dedos não podiam acompanhar. No meio de tudo a porta se abriu o que nos interrompeu quase simultaneamente. As mãos se moviam muito, a princípio eu não tinha entendido, mas não demorei a perceber que ela não podia ouvir, e por isso ontem se surpreendeu quando a mãe entrou no quarto. Eu tinha pensado que não havia batido na porta, mas a verdade é que de nada adiantaria. Fiquei imóvel, decepcionado. Ela nunca iria me ouvir, nunca entenderia o que estava sentindo. Ela já havia recomeçado, me ignorava completamente, os passos não faziam mais sentido para mim, embora continuassem embalados por uma misteriosa batida que a guiava sem deslizes. Eu olhava para ela completamente perdido e tentava encontrar uma forma de ela me escutar. Foi num rompante que me sentei novamente ao piano e a segui. Quanto mais ela girava, mais alto eu tocava, numa tentativa desesperada de que de alguma forma ela me ouvisse. Aos poucos, não só eu, mas tudo ao redor se deixou invadir pela música, eu sentia todo meu corpo vibrar, depois o piano e o chão. Os quadros caíram das paredes, o vaso caiu da mesa de canto, os lustres tilintavam. O prédio inteiro tremia, e de repente, quando cheguei ao fim, fez-se silêncio total, a não ser pela chuva que havia voltado à toda, virei para o lado e a vi de pé na sacada, olhando na minha direção. Só não sabia se era tempestade ou lágrima o que molhava o seu rosto.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

o que é que a gente não faz por amor?

Hoje faz 11 dias que eu não abro um livro para estudar. Zero, nada, nem uma linha. Com o tempo eu aprendi que quando não consigo fazer uma coisa não adianta insistir. O melhor é mesmo abstrair e ir fazer qualquer outra coisa. Nada pior que culpa e fracasso juntos; se não insisto, fico só com a culpa. Moro no mesmo lugar há uns 3 anos e só outro dia descobri que o prédio tem um terraço. Tomei um banho e resolvi subir para ver pôr-do-sol de lá. Quando decidi, me pediram manda uma foto pra mim? e eu imediatamente disse que sim. Eu provavelmente publicaria a foto em algum outro lugar para que outras pessoas também pudessem ver. Talvez só mandasse para a única pessoa que sabia que eu estava lá. Não sei. Subi, vi para que lado o sol estava indo embora e me sentei. Fiquei um tempo por lá, fumei uns dois cigarros diferentes e logo que as mãos ficaram disponíveis, peguei o celular para tirar a tal foto. Pensei que seria lindo se eu tirasse várias ao longo do processo. Seria quase um filme, quase estar ali ao mesmo tempo que eu. Qual foi a minha surpresa quando a câmera não funcionou. Deve ter sido do banho de cerveja de ontem, ou dos tombos sucessivos que o aparelho começou a levar depois que passei da fase de cuidado neurótico  assim que a gente compra. Tirei a bateria, liguei de novo. Nada. Tentei algumas coisas que fui capaz de pensar na hora. Nada. Reiniciei de novo. Nenhum movimento. Decepção. Eu precisava tirar aquela foto. Cogitei descer e pegar uma câmera em casa, mas logo desisti quando me dei conta de que não ia rolar descer as escadinhas. Tentei fazer a câmera funcionar algumas várias vezes, quando fui pegar outro cigarro e percebi que o céu estava muito mais escuro. Eu estava perdendo todo o processo e nem o destinatário da foto nem eu veríamos nada. Dali em diante, deixei o celular de lado - como fiz com os textos que tenho que terminar de ler - e parei. Demorei uns segundos pra me situar vendo tudo de cima (nem isso eu tinha parado para analisar), achei estranho o silêncio, diferente do meu apartamento no quarto andar. As janelas dos prédios vizinhos foram se acendendo aos poucos, e com elas os postes das ruas e os faróis dos carros tão pequenos vistos dali. Via a movimentação nas casas, senhoras vendo a novela, a maioria das pessoas chegando, algumas se arrumando para sair. Me lembrei de quando eu era menina - bota aí uns bons 15 anos - e chegava em casa por volta desse horário depois da aula. Nessa época, a minha mãe ainda era a minha mãe (ou o contrário, não sei). Buscar a gente na escola fazia parte desse papel, o que era sempre um evento: três filhos dentro de um carro, sendo duas mulheres, dava o que falar. A gente chegava e começava a segunda parte da missão, banho, jantar e dever de casa. Quando a gente é criança, acha escola um saco, mas eu sempre ouvi que a gente só dá valor quando perde e isso serve para mim com essa fase. Num encadeamento tão rápido quanto confuso de idéias, eu comecei a me lembrar de vários episódios, recentes, antigos; alguns esquecidos, mas tão vivos quanto os que ainda estão na minha cabeça todos os dias. Me lembrei da última menina que eu beijei e do último menino também. Lembrei do gosto de infância da boca dele por conta uma bala verde que eu não comia há séculos, e da dela de canela - rimou -, mas esse nem um pouco de infância, por conta de algumas muitas doses de cachaça. Nessa hora, atrás de mim já era quase tudo noite, embora toda a paisagem na minha frente ainda estivesse iluminada por um sol tímido que já se escondia atrás do morro. A luz alaranjada me lembrou do pôr-do-sol do Oriente, uma bola de fogo que não machuca os olhos quando você encara; não sei se por isso o sol parece muito maior, mas dá para ver o círculo perfeito, vermelho metálico por dentro. Lembrei do nascer que precedeu uma das fases mais incriveis da minha vida, quando eu ainda não sabia o que era amar duas pessoas ao mesmo tempo e estar com elas. Não que isso fosse incrível-incrível, mas um incrível-surreal, mas também não é como se eu me orgulhasse disso. Logo depois, eu, ainda que não me arrependesse de nem um minuto sequer, decidi que nunca mais iria fazer aquilo novamente e até agora não aconteceu. Lembrei do meu avô, do quanto ele gostava de sorvete de flocos com biscoitos waffer recheados de chocolate, e de uma vez que ele me pediu para escrever uns nomes num pedaço de papel, quando ele já estava perdendo a memória. Lembrei da primeira noite em que viajei a trabalho e fiquei sozinha num hotel. Essa foi também a primeira vez que entrei num avião e quase morri do coração naqueles míseros 45 minutos de ponte aérea. Nessa época eu não podia conceber a idéia de ficar dentro daquilo por muito mais do que isso, e obviamente não imaginava tampouco que conseguiria ficar não só uma, mas quinze horas por lá, e isso justifica o título também. Lembrei da noite mais feliz também, dessas durante viagens para acompanhar casos de conteúdo ( no singular, porque era o mesmo em todos eles) nada interessante, numa época em que não me sentia tão só. Na verdade, acho que era a mesma coisa, mas olhando para trás, parece que antes era melhor e que o amanhã nunca vai chegar. Por um instante, lembrei da foto e de como era chato não poder guardar aquilo ali. Logo eu que sempre fui a louca das fotos, sempre com uma câmera na mão, tentando guardar aqueles segundos numa quase paranóia, naturalmente num medo inconsciente daquilo se perder. Ou talvez, pensando um pouco melhor, para ter uma prova de que aquilo realmente aconteceu e tentar extrair dos rostos das pessoas ou dos detalhes algo que me permitisse duvidar e/ou me certificar de um determinada coisa. Não sei. De repente, eu cheguei à brilhante conclusão de que nada disso adianta, que os sorrisos das fotos escondem dúvidas, dores e até traições - muitas vezes futuras. Ao ver o dia acabando lentamente, eu me dei conta de que, daquele exato ponto onde eu estava sentada, ninguém estaria vendo o sol se pôr. De algum outro terraço, praia ou fresta de céu, muitas outras pessoas certamente, mas não aquele ali. E na sede do tal registro, quase nem eu vejo. De um lado já era noite, do outro também, mas eu lá de cima ainda via uma nesga de luz atrás da montanha que lembra um homem deitado de barriga pra cima. E me despedi do sol, desejando que amanhã eu não me esforce tanto para dividir nada com ninguém, e que me preocupe mais com quem vai querer sentar do meu lado lá em cima da próxima vez. Ou não, como diria Caetano.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

tipo um baião.


De onde eu vejo agora, a lua andou uns metros para a esquerda. Quando eu pude vê-la, eu te lembrei de olhar para o céu também. Eu acho incrível isso de estar ao mesmo tempo sob a mesma luz refletida numa massa opaca que gira em torno de nós. Eu gosto de pensar que se olharmos ao mesmo tempo naquela direção vamos dividir um mesmo segundo a uma distância curta se a gente considerar daqui até a Lua, mas certamente considerável a essa hora, sob as nossas condições.

A mesma distância daqui ao Cristo talvez, que você propôs fazermos a pé. À noite. Não vi outra solução a não ser dormirmos lá, nós e a Lua, que se fosse hoje já não estaria tão cheia como vimos há alguns dias. Hoje não chove, o que também seria bom; o céu hoje está límpido, o que nos permitiria ver as estrelas, mas seria sinônimo de ventos cortantes nesse início de Primavera.

É verdade, eu tenho essa tendência de não ver só o lado bom. Com certeza, se fosse você aqui, e não eu, falaria das estrelas e de como o quarto minguante é uma fase de transformação, não se importaria com o frio, nem com a lua menos cheia, faria deles algum verso de encanto e deixaria o resto para lá. Nesses saraus ao luar, quando meu coração você, sem pensar, ora brinca de inflar, ora esmaga.

A verdade é que as minhas frases perdem o foco junto com as horas da noite, ficam todas enroladas. Não é só a intensidade que muda, mas a facilidade que surge involuntária em me desdizer e acabar dizendo o que queria, mas não pretendia dizer. Você sabe, eu prefiro aproveitar as manhãs, quando sempre tenho as melhores ideias e um maior controle de mim.

Não sei para que outra história de amor a essa hora; no fundo, eu pensei em esperar até amanhã, mas a Lua já andou um pouco mais e acredito que isso signifique uma despedida, com a chegada manhosa das primeiras luzes do dia. Na verdade são três horas, estou já nas primeiras horas da manhã, a escura e ainda não dormida, mas não deixa de ser manhã. Eu inverti meus horários, ainda não consegui regular o sono perdido.  Um quase não sei por que, somente agora você vem, vem para embaralhar os meus dias e por aí vai.

Eu roubo a coberta, avisei, e que roubava espaço na cama também, que no meio da noite eu ia estar na diagonal, como se estivesse sem mais ninguém no colchão. Você não me avisou, mas roubou minha mão na entrada e outras coisas acabaram indo com ela. Eu queria dizer isso na hora, mas não quis que você ficasse sem jeito. Ia acabar me devolvendo a mão ou dando um sorriso meio de lado envergonhado demais. Eu ia adorar o sorriso de lado, quando uma mecha do cabelo cai também.

Eu não roubei a coberta, nem o espaço no colchão. Devo ter roubado algumas coisas por certo, mas não sei dizer.




segunda-feira, 10 de setembro de 2012

kathy h.



What I'm not sure about, is if our lives have been so different from the lives of the people we save. We all complete. Maybe none of us really understand what we've lived through, or feel we've had enough time. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

casa XI.

A casa onze tinha oito portas. Sete brancas, uma marrom. Sete altas, uma muito baixa, e não era a marrom. Todas em círculo, com um poço no meio. O pátio ao redor era de ladrilhos vermelhos, expostos ao céu aberto. O teto de estrelas parecia mais alto do que o normal, o de nuvens mais baixo do que o esperado. Dei naquele pátio, mas não sabia dizer de qual porta havia saído. Do céu, impossível, do poço, talvez? Por instinto, quem sabe, fui ao ímpar mais explícito e abri a porta marrom. Cheguei imediatamente ao pátio externo do mesmo cenário: eu estava agora do lado de fora do círculo numa espécie de varanda do espaço anterior e foi quando percebi que se tratava de uma torre altíssima, num vasto campo a perder de vista, cercada por um fosso de um raio - considerada a distância que eu estava do chão - de pelo menos cinco quilômetros. Não havia qualquer conexão entre a construção e a margem. Aparentemente, acreditava eu, cheguei e precisava sair. Dei voltas e voltas no círculo de fora, supus que qualquer porta me levaria para dentro e, por isso, abri a primeira porta branca pela qual passei. Bati a porta atrás de mim e me vi diante da porta marrom. Do lado de fora. Repeti o gesto com mais cinco portas, inclusive a marrom, e todas me levaram ao mesmo lugar. A porta marrom. Do lado de fora. Faltava a porta muito baixa. A bem da verdade, era uma portinhola muito rente ao rodapé e, agora me dei conta, é muito mais baixa do lado de fora. Ao contrário das demais, ela abria para dentro, o que constatei já deitado no chão do mesmo tom amarelado das paredes e excessivamente limpo, a despeito da sala de dentro. Tentei tocar o dentro da porta, tive medo de ficar preso no meio do caminho. Ou ainda pior, lá dentro. Me pus de pé novamente, tentei todas as portas pelo menos três vezes e em vão voltei ao ponto de partida. Foi quando, então, decidido, eu pulei.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

quinta-feira, 7 de junho de 2012

o mundo é pequeno pra caramba.

O nosso era muito mais original. Porque não era meu, nem dele, porque se assim fosse não se saberia exatamente o que era devaneio ou o que era razão, e tudo seria um misto de conclusões e luzes, às vezes indiretas outras em neon. Quando tudo se apagou só sobraram alguns trôpegos e vários porquês que faltaram esclarecer. Eu que já não lembrava mais como tudo começou, preferi sair antes de a sessão terminar. Assim, se o final fosse infeliz, eu levaria adiante qualquer subterfúgio, acenderia todas as luzes de uma vez, as indiretas, minhas, em versos intrusos; cegando relances de memórias futuras, eu me fui sem olhar para trás, tentando entender o calor que se deu em alforria. Quarta-feira. Primeiro último capítulo da estreia. Não, isso foi o que eu inventei. A saudade era uma coisa que eu também tinha inventado: uma parte de mim era solidão e a outra já morreu.

sábado, 7 de abril de 2012

juran que esa paloma no es otra cosa más que su alma.

Ela teima em dizer que não, mas eram de amêndoas os biscoitos que ela trouxe para o quarto na primeira manhã. O chá, concordamos, era de erva-doce, e bebi feliz, embora não suporte nem o cheiro de erva-doce. Chegou esvoaçante, as maçãs ainda coradas do calor do forno, sorrindo com as duas arcadas à mostra, num harmonioso quase excesso de dentes, que só combina com seu rosto longo. A blusa era minha, não achei a minha nessa bagunça, espero que não se importe, mas a calça cor de chiclete era absolutamente dela. Enquanto eu provava os biscoitos ela me olhava com uma expressão que até hoje não compreendo. Eu tentava fazer parecer que aquilo tudo não era tão importante assim, mas ela pouco se importou. Sorria e sorria e virava a cabeça de lado, de jeito que os cabelos muito compridos esbarrassem nos joelhos cruzados à minha frente. São todos pra mim?, quis saber em mais uma tentativa de me sentir no controle. Ela fez que sim com a mesma cabeça de lado, o mesmo sorriso largo e me venceu de novo, sem nem saber que estava lutando, o que para mim era ainda mais desconcertante. 

Levantou-se num rompante e começou a arrumar o quarto e a falar sobre o que iríamos fazer durante o dia. Iria me levar para conhecer a cidade, tomaríamos o melhor capuccino que ela já havia provado na vida, iríamos à feira comprar uma lista de coisas (que não entendia como ela tinha memorizado de tantas que eram) para preparar o jantar em casa e por fim encontraríamos alguns amigos dela que queria que eu conhecesse, os mesmos que se juntariam a nós à noite para provar o prato cujo nome até hoje não consegui memorizar. Falava e gesticulava, às vezes se sentava na beira da cama e tocava meus pés por alguns segundos, e logo se levantava novamente, como se estivesse um pouco tímida apesar de eufórica de novidades.

Foi até a sacada e acenou para uma senhora que morava na janela do mesmo andar do outro lado da rua. Disse palavras que não consegui entender, sorriu e enrolou os cabelos num nó que se desfez automaticamente, e os fios derreteram dançantes até a cintura. Pegou a bandeja em cima da cama, deu alguns passos em círculos, todo o tempo falando sem parar e eu, em silêncio, mais por não querer interrompê-la do que me parecia um êxtase ansioso, do que por não ter o que dizer. Falava de umas gravuras, algo em que havia trabalhado nas últimas semanas e queria me mostrar, mas não tinha mãos para pegar, Vou deixar isso na cozinha, me espera que já volto, e eu me perguntei para onde e como ela achava que eu iria fugir.

Voltou com uma garrafa de água gelada, Nessa época faz tanto calor que não sei, e também fiquei eu sem saber o que queria dizer. Acredito que tenha se esquecido dos tais desenhos, porque se deitou na cama de lado me dizendo Você prometeu que ia pentear meu cabelo e foi a única coisa que precisou me pedir desde então, quando me enfeitiçou o cheiro de flores que se espalhou pelo quarto naquela manhã.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

nobody wants you when you are down and out [2].

O homem do relógio resolveu ir embora. Assim, sem mais nem menos, porque resolveu. Decidiu que os dias seriam contados ao contrário, a partir da sua chegada no novo destino que ainda desconhecia. Limpou a casa, cobriu os móveis, fechou todas as janelas, libertou os pássaros da gaiola, e, o cão, deixou na casa da vizinha que já cuidava dele durante suas viagens de rotina. Saiu às 5h da manhã, horário em que todos dormiam, mas não se preocupou com a hora exata. Deixou para trás os horários, as rotinas, queimou a casa e ligou para os bombeiros, não queria causar transtorno aos que viviam ao redor. 

O homem do relógio seguiu a pé, para não deixar rastros. Foi pelo caminho mais longo para ter tempo suficiente para se esquecer de seus planos e se perder no trajeto. Andou sem contar as noites por três meses, até que se esqueceu também de seu nome. Não sabia mais qual era seu prato preferido, o dia do aniversário de sua mãe, nem o nome do cachorro que havia deixado com a vizinha.

O homem do relógio esqueceu os números e viveu todos os dias como se fossem um só. Ia do 1, ao 2, do 2 ao 3. Chegava ao 12 e recomeçava. Do 1, ao 2, do 2 ao 3. Em círculos, ele andava. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

chega de saudade.

Era um céu azul de transparência nítida dos dias de verão. Não tinha mais o que pedir, ele não sabia mais o que eu queria e eu, eu nunca soube. Por que você não me disse que viria para ficar? Por que você não me abraçou mais forte antes de sair de manhã? A gente nunca sabe quando vai ser o último dia, a gente na verdade nunca sabe em que posição algo se cala para sempre. Eu não sabia e fui. E pensei, como posso entender o que me espera se não sei para onde vou. Eu só tinha certeza de que dessa vez eu não queria mais correr em vão, eu preferia sangrar meus pés e apreciar a paisagem. Enquanto os rios continuavam a correr e a brisa ainda ventava lenta a cortina da sala eu saí pela porta. Da frente, sem dúvida, exatamente por onde entrei. Quando fechei o peso da angústia atrás de mim, me libertei da responsabilidade de ser o que nunca quis e me perguntei por quanto tempo ainda teria me permitido viver esse martírio. Eu pensei, se eu tivesse tido certeza alguma vez nessa vida, a única que conheço bela, os dias teriam sido mais brilhantes? Se eu não pudesse medir o tamanho da ternura perdida em mim, eu seria capaz de contar o quanto ainda me falta viver? Eu gosto de agradecer ao acaso quando ele me engana. De vez em quando ele me carrega a passos lentos para rebelde me arrastar trajetos longos de momentos de desvario. Eu rio e choro, e quase nunca me conformo com as placas que me guiam, na sorte escolho uma e vou. Na falta de opção, me decido pelo que melhor me soa. Hoje, agora, senão me perco. Eu vou e digo adeus, com uma felicidade há muito esquecida.

domingo, 29 de janeiro de 2012

e o meu medo maior é o espelho se quebrar.

Tanta coisa que eu simplesmente não pensei em te dizer. Quero dizer, na verdade elas sempre estiveram aqui e eu não tinha para quem dizer, e, quando encontrei, elas fugiram num raio. Eu não saberia por onde começar, mas pelo menos teria encontrado algum modo de fazer você um pouco mais feliz. Eu não tinha a menor idéia do quanto isso tudo cresceria, eu não sabia dizer o que viria depois do não, mas sabia que não conseguiria voltar atrás. E se eu pudesse te dizer o que cantei para tantos, eu seria mais forte que você, simplesmente porque desse modo eu te aproximaria dos outros. Eu te coloquei à parte e perto, num quase não existir no meu peito. Você sempre soube que isso não seria nada além da minha melhor teoria de amor, que eu usaria o resto da vida como justificativa para sofrer por algo que jamais aconteceu e que a partir daquele momento estaria proibido para sempre. Eu não sei amar porque preciso mais do que quero e quase sempre me esvaio por nada. Nem todo dia eu te amo e eu nunca sei quem sou. Eu faço você acreditar que te amo perdidamente, pois esse foi o jeito que encontrei de me punir por não conseguir sentir nada que não seja uma necessidade desesperada de fuga. Mas, no fundo, acho que você gosta mais de mim do que eu de você. Eu preferia dizer isso pessoalmente.
*
Eu preferia dizer isso pessoalmente. Mas, no fundo, acho que você gosta mais de mim do que eu de você. Eu faço você acreditar que te amo perdidamente, pois esse foi o jeito que encontrei de me punir por não conseguir sentir nada que não seja uma necessidade desesperada de fuga. Nem todo dia eu te amo e eu nunca sei quem sou. Eu não sei amar porque preciso mais do que quero e quase sempre me esvaio por nada. Você sempre soube que isso não seria nada além da minha melhor teoria de amor, que eu usaria o resto da vida como justificativa para sofrer por algo que jamais aconteceu e que a partir daquele momento estaria proibido para sempre. Eu te coloquei à parte e perto, num quase não existir no meu peito. E se eu pudesse te dizer o que cantei para tantos, eu seria mais forte que você, simplesmente porque desse modo eu te aproximaria dos outros. Eu não tinha a menor idéia do quanto isso tudo cresceria, eu não sabia dizer o que viria depois do não, mas sabia que não conseguiria voltar atrás. Eu não saberia por onde começar, mas pelo menos teria encontrado algum modo de fazer você um pouco mais feliz. Quero dizer, na verdade, elas sempre estiveram aqui e eu não tinha para quem dizer, e, quando encontrei, elas fugiram num raio. Tanta coisa que eu simplesmente não pensei em te dizer.

domingo, 27 de novembro de 2011

sábado, 26 de novembro de 2011

metade da terceira conversa.

- Jesus Cristo. - Ela passa a marcha com uma violência impressionante e fica sem falar comigo durante um tempo. Sei que quase chegamos a algum lugar; sei que se tivesse coragem eu diria a ela que ela estava certa, que ela sempre tinha razão e que eu precisava dela e a amava, e teria pedido que ela se casasse comigo ou algo assim. Só que, sabe como é, quero manter minhas opções em aberto, e de qualquer forma não há tempo, porque ela ainda não terminou comigo.

- Sabe o que realmente me incomoda?

- Sei. Todos esses troços que você acabou de me contar. A respeito de como eu mantenho minhas opiniões em aberto e tudo o mais. 

- Fora isso.

- Puta que pariu. 

- Eu consigo lhe dizer exatamente - exatamente - o que está errado com você e o que você deveria estar fazendo a respeito, e você não conseguiria nem chegar perto de fazer o mesmo por mim. Conseguiria?

- Sim.

- Comece, então.

- Você está farta do seu emprego.

- E isso é o que está errado comigo, não é?

- Mais ou menos.

- Está vendo? Você não tem a menor idéia. 

- Dê-me uma chance. Acabamos de voltar a morar juntos. Provavelmente descobrirei alguma outra coisa nas próximas duas semanas. 

- Mas nem mesmo farta do meu emprego eu estou. Gosto bastante dele, na verdade.

- Você só está me dizendo isso pra me fazer parecer idiota. 

- Não, não estou. Gosto do meu trabalho. É estimulante, eu gosto das pessoas com quem trabalho, já me acostumei ao dinheiro... mas não gosto de gostar disso. Fico confusa. Eu não sou quem eu queria ser quando cresci.

- Quem é que você queria ser?

- Não uma mulher de blazer, com uma secretária e de olho numa sociedade na firma. Eu queria ser defensora pública com um namorado DJ, e está tudo dando errado.

- Então vá arranjar um DJ pra você. O que é que você quer que eu faça?

- Não quero que você faça nada. Só quero que você entenda que eu não me defino inteiramente pela minha relação com você. Quero que você entenda que só porque estamos esclarecendo as coisas entre nós, não quer que eu esteja ficando esclarecida. Tenho outras dúvidas e preocupações e ambições. Não sei que tipo de vida eu quero e não sei em que tipo de casa eu quero morar e a quantidade de dinheiro que estarei ganhando daqui a dois ou três anos me assusta e...

- Você não podia ter desembuchado isso logo de cara? Como é que eu ia adivinhar? Qual o grande segredo?

- Não há grande segredo. Estou simplesmente salientando que o que acontece conosco não constitui a história toda. Que eu continuo a existir mesmo quando não estamos juntos.

Eu teria descoberto isso sozinho, no final. Teria visto que só porque eu fico um pouco fora de foco quando estou sem parceira, não significa que isso aconteça com todo mundo. 

Alta fidelidade, Nick Hornby.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

viver é super difícil o mais fundo está sempre na superfície,

Eu não seria nada se não fosse a minha vida de deixar viver. Eu não seria mais nada além, se não houvesse dito e revisto os passos que dei, as manias que perdi e as palavras que deixei no ar. Sem você eu achei que não viveria, mas descobri que o seu silêncio me foi mais digno que o seu perdão. Eu lhe falei que o meu hoje era um vazio pleno de desconfianças e desprezo, que eu não podia mais sentir nada que não fosse o que outro dia eu refiz meu, mas eu preferi desdizer o meu ontem a rever o amanhã. Eu soube desde sempre que isso não daria certo. E não deu. Não porque o meu começo não tenha sido em desconforto, mas tanto mais porque o dia certo de existir sempre foi o que por mim se deu a controlar. Eu não tive controle de tudo, eu não aprendo que não é possível ter controle de tudo e que é exatamente aí que tudo se encaixa. Eu não sou nada além de uma mentira que se detém em erros para justificar meus impulsos e minhas totais verdades. Eu não tive medo de entrar no palco sem tirar o chapéu, não foi isso exatamente que me feriu. Foi o seu não em forma de sim para depois, que me tirou as rédeas que eu gosto de ter em mãos. Foi o meu desespero em forma de preocupação que me tornou esse desterro, esse impacto sem provas, essa dor em desatino que me corrói. Eu fui corrompido por mim e, disso, ninguém me avisou. Se eu não pudesse mais saber o quanto seria fácil ter uma união em relento, uma falsa noção de prazer, eu teria sido menos prudente. Teria me deleitado em redenção, em nostalgia, me permitindo viver com você o que eu vivi em outros braços, e estaria por fim, revivendo. Essa liberdade que inspiro é muito menos que o pânico de não ser desejado, uma lenta e suave ilusão de que o mundo conspira para que o meu sétimo dia seja tudo menos descanso. Eu seria mais se não me sentisse tão pouco amado, e tudo o que preciso hoje é de alguém que me enxergue, o que absolutamente se distancia de apenas me ver, porque é isso que me faz caminhar adiante. Você não é nada, só alguém com quem dialogo para não me sentir tão só, que criei dentro de mim como o perfeito interlocutor em meus dias infinitos, meus profundos vazios. Eu também não sou ninguém e sem demora me apresento para dizer que sou infeliz como você, que não sei o meu lugar num mundo tão imenso e que não sei por onde começar a procurar. Muito prazer. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

nessa luz tão clichê eu te encontro perdida e quero fugir com você.

Manoel não dormiu. Se pensasse bem, era o que já queria desde o início. Ele não sabia ao certo o que lhe dizia para continuar. Ele não sabia nada. Enquanto ela dormia, pensava se Marina já estava de pé. Linda, Marina. Linda de doer. Linda de viver. Linda de sorrir e fazer sorrir. Linda, deveria se chamar Marina, para Manoel. E, linda, era como Manoel se lembrava de Marina. Não linda exatamente como vêem os fúteis. Linda como ela deveria ser e havia se esquecido. Ou como ainda não havia descoberto. É linda, ele pensava, e se entorpecia na luz do dia que começava estranho, sem terminar, mas já findo em si. Não é possível que eu não tenha reparado, ele pensava e ouvia o sol crepitar lá fora.

Se Marina soubesse o quanto se ama lá fora, teria saído da cama antes. Com certeza, ela não lembrava mais de como era a vida sem. Marina não sabia mais o quanto a fazia feliz, vivia da inútil presença da lembrança que a assolava sem perdão, uma saudade viva na carne, na vida que se incomodava em viver. Marina, a menina de olhos misturados em prece, a um deus recém descoberto que ainda não lhe havia ensinado como extirpar a dor preciosa que carregava no peito para não se esquecer do que era enfim morrer. E renascer.

Manoel pensava impune em como faria. Um sermão na montanha não lhe seria suficiente. Não para ele; para Marina, talvez. Para uma serenata não seria capaz de escolher as musicas certas, talvez sua voz o calasse em dúvidas de prosseguir. Quem sabe um dia Marina escolherá as musicas que quer me ouvir, quem sabe ela seja um dia a querida de meus afagos, quem sabe o mundo não será tão injusto e me trará a paz novamente, ele cogitava, ciente de que se tratava de uma batalha perdida. Uma batalha, que hoje me traz à porta o fracasso, em batidas firmes e compassadas, mas o que não dá certo hoje poderá ser o oxigênio de amanhã. Mas se amanhã já é hoje, como farei?

Quando Marina pensou no que queria dizer, o que a invadiu primeiro foi o que não sabia explicar, como faz tempo não acredita em si mesma, o que há tanto a impede de trazer para dentro o que lhe mostram em verdades voláteis. Não sabia mais definir se era bom ou ruim ser invadida de tanto azul, mas preferiu pensar que era bom. Afinal, ruim, há muito já era. Ser bom para ela não significava exatamente ser ruim para outros, mas naquele momento, pensou novamente, e preferiu decidir assim. Não sabia se isso a aproximava ou não do que toda a gente fazia questão de fazê-la acreditar, porque definitivamente, aproximar faria cair por terra tudo o que se impôs para ser capaz de seguir.

Manoel ainda não havia se decidido se preferia ver de longe ou se preferia se livrar dessa sensação confusa, o que também o afastaria de tudo que havia decidido para si. Ele não ainda havia definido por onde ia seguir, mas desde o início de tudo ele sabia onde tudo iria chegar. E sofrendo, então, seguiu tentando romper os duros obstáculos. Como Marina. Manoel, insatisfeito com tudo o que já havia esquecido, resolveu se lembrar de como ela repetia displicente as palavras dele, talvez num ritmo diferente, numa cadência não pensada antes, que talvez ele tivesse querido pensar. Mas Marina, maldita, Marina foi capaz. E tirou todo o respaldo, a segurança do piso e Manoel pensou, estou caindo.

Marina e seu amor antigo, guardado de pó e mágoas, precisava se apaixonar novamente. Mas não sabia como. Não sabia como curar as feridas que alimentava para trazer algum tipo de motivação para o corpo inerte. Era um dia, uma noite, luzes sem cessar, uma cura, cadê? Marina queria dizer que adorava ela. E Manoel adorava que ela adorasse qualquer coisa, só pelo simples fato de que ela sorria quando saía sem se importar com o às vezes incomum silêncio entre eles. Marina queria poder esquecer todos os castelos que construíra para se esconder nos últimos dias. Meses de trabalho em vão, ela se despedia das tentativas de se maltratar pelas noites inundadas em pranto, de rosto iluminado de cansaço e dor.

E Manoel, num misto de riso e dor, não a mesma dor de Marina, mas uma dor de vazio desconhecido, tinha a certeza de que aquela felicidade era uma coisa mais do que antes experimentada pelo simples fato de nunca ter se pensado de pé tão cedo, ainda com um mesmo pensamento a lhe ocorrer. Não era uma bobagem de vidas deixadas para trás, em ruas que nunca percorreu, mas daquelas que sabia que não precisaria apontar os postes de luz mais bonitos, a luz que ele tinha para enxergar adiante estava ao lado. Uma vez, então, em sua vida feliz, ele viu que feliz estava aqui, sem saber por onde começar a se desfazer do que já tinha como seu eu.

Marina não sabe como começar. Não fazia mais sentido não dizer. E algumas coisas que vê e sente e vive, ela no seu viver contido de menina, não quer se calar. E grita, grita a plenos pulmões e chora e ri, não como Manoel, deitado no sofá da sala já embriagada de raios de sol, ela ri de uma felicidade já vivida, que não volta mais, da singela lembrança que preferiu guardar, dos nomes que guardou e das manhãs de chuva, diferentes dessa que começa. Parece lindo o cenário, parece tinta a óleo, parece a paisagem dos sonhos. E suas lágrimas, cansadas de serem convidadas a participar de seu desespero, mostraram que o quadro que carregava nas costas, tentando decorar os dias de hoje com o que havia ficado no passado, é feito de aquarela e se esvai.

Manoel abraça Marina, ele crê. Ela não sabe de onde vem o calor que a conforta, mas decide que não precisa mais correr. Ele adormece enfim, invadido pelas cores que ela chora. Ela sofre, mas simplesmente ri. E quer conversar com ele até amanhã de manhã, sem saber de quem é a mão que a afaga, nem que o dia para ele simplesmente acabou de apagar, pois todo o resto basta.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

você só me fez mudar, mas depois mudou de mim.

Hoje Clarice morreu. Morreu de morte matada, morte sofrida, morte abandonada. Foi a morte do amor de nunca vida, a morte do sereno escutar da palavra ávida de sentido. Clarice morreu, Alice não se culpa mais. 

Hoje foi o dia em que Alice, matou Clarice. Puxou seu pé por baixo da mesa e derrubou-a de cabeça no chão. Ela estava desacordada e não entendeu quando Alice bateu a porta atrás de si e ateou fogo na casa. Clarice sufocou com a fumaça e não conseguiu pedir socorro, rastejou por algum tempo, entre fragmentos de desdém espalhados pelo chão e por fim achou a porta, aquela que Alice fechou. 

Mas a chave Alice carregou consigo. E Clarice, sem entender o porquê, entendeu simplesmente que não seria capaz de sair. Era o fim. 

Adeus, vida, adeus. Adeus, bom dia, adeus. Adeus, promessas, palavras, perdão, palavras, pedidos, palavras, perdidas palavras. Adeus, dias, noites, dias-noites. Adeus, tempo, adeus. Adeus, boa noite, eu me despeço de todos daqui.

Adeus, mentira, adeus. Adeus, sufoco, vergonha, medo, ameaça. Adeus. Adeus. Adeus.

Meu coração bate vazio. Seu grito oco no meu peito espalha a dor que lateja o mar de veias que me irriga de falta. Estou sozinha, seu bem querer não me rege mais e, por isso, não me reconheço. 

Ontem ouvi meu nome na TV e fingi que era você a me chamar. Não era o meu nome exatamente, mas o nome diferente que escolhemos para nos chamarmos e que em qualquer contexto me lembrará você. 

Eu sinto tanto pelos dias que desperdicei acreditando que você estaria comigo para sempre. Sinto pelas noites em que senti calor e não dormi abraçada com você o tempo todo. Eu sinto tanto, meu amor. Eu sinto tudo o que eu sentia e mais o espinho frio que me atravessa quando seu sorriso me vem em áudio e cor. E enquanto você sorri eu ouço um eu te amo redondo de luar, não o seu adeus silencioso de dor. 

E de cólera não se cria adeus, se compila motivos para não enxergar o que meu mundo, você, meu vulcão, despeja cego. Eu não sabia que seus pés pesavam tanto. Eu não sabia que seu coração batia tão devagar. Eu confundi o meu mundo com o nosso, eu fiz dele um céu limpo de rajadas de vento. Eu quis um querubim para me contar a história do dia igual a esse, no caminho igual a esse, mas que hoje me leva para muito longe daquele que eu pensei fosse ser o último gosto que eu iria conhecer. 

A lua me olha queimar aqui, a maldita. E eu não sinto mais o calor me arder. 

terça-feira, 26 de julho de 2011

my knight in shining armor.

Quando eu vim para esse mundo, ganhei uma espada para lutar e um escudo para me defender. Quando eu era menino, ainda muito pequeno para entender a utilidade de coisas tão grandes, me escondia sob o escudo e fazia dele um castelo em formato de cogumelo gigante. Ali eu guardava uma vitrola antiga e umas histórias de contar que trazia mais na memória do que nas páginas que folheava sem compreender. Um dia, eu percebi que meu castelo não me protegia mais. Meus pés ficavam para o lado de fora, se queimavam com o sol do dia e se molhavam de chuva no fim da tarde. Eu era achado com facilidade por aqueles que preferia esquecer. Não conseguia mais deixar a lama do lado de fora e minha fortaleza precisou ser derrubada. Eu ainda era muito pequeno para trazer a espada em riste e descobri que a manter alinhada ao meu corpo era bastante eficaz para amedrontar alguns. Passei muito tempo parado, mais servindo de apoio do que sendo apoiado, e, por fim, percebi que precisava andar. Arrastei por muito tempo aquele peso sem saber mais uma vez qual a serventia daquilo tudo. Foi quando um dia, exausto, cheguei num beco sem saída. Embora ainda não tivesse força nem tamanho suficientes para empunhar a espada, os calos que minhas mãos já exaltavam me deram apoio para desbastar os espinhos e o caminho se abriu. Desde então, muitos vieram comigo, todos desistiram. Muitos me deram o braço e disseram, vamos, mas nunca dividiram o peso das armas comigo. Outros me viram cair e disseram, levante, mas não se dispuseram a cuidar das feridas do meu corpo. 

E eu ainda me culpo de pensar que lutar é para os fracos: os fortes seguem na sobra.

domingo, 24 de julho de 2011

they got a skin and they put me in.


Não é que eu não acredite, mas quase não sei dizer o porquê de tanta dúvida. Talvez seja o sol que não brilha mais da mesma forma, ou o cheiro da manhã que não se apresenta mais tão ocre. Li todos os livros que tinha na estante disponíveis para o amor e ainda me encontro perdido numa pilha que cresce e cresce sem tamanho para um infinito de poesia e dor que me sufoca. É um medo de não conseguir decifrar tudo o que se esconde entre as palavras o que me devora. Eu não tinha mais idade para fugir de mim mesmo quando percebi que o outro era eu em encontro ao navegar da vida. Se hoje eu não sei o que sou, não foi por mim, mas por aquilo que deixei de ser há muito tempo, já lá atrás dos tempos idos que não se foram completamente, mas que, sim, persistem e insistem em me esconder do que realmente desejo. E se não fui o que efetivamente desejei, não foi por mim, mas por aqueles a quem jurei devoção eterna. Enquanto esses se jogavam na vida que eu propiciei, eu, em mim há tanto perdido, me esquivei de minha real devoção e me escondi entre o pó e a fadiga de ser um quase nada de mim que se jogou às trevas da solidão. Tanto tempo longe desse eu, que hoje, ao me enfrentar sofro um distúrbio resultado de um conflito com o sempre e com o agora, enquanto o agora já há muito deixou de ser o sempre. Desse estado quase inerte eu me jogo ao meu tudo que se revolta como um vulcão de inimizade com o meu mais profundo conflito, uma jornada de terríveis percursos àquele que eu não reconheço mais ao olhar no espelho do quarto. Sou eu, eu penso, sou eu que me encontro ali, mas que rosto é aquele que eu não sei de quem é? De quem é a vida que aquele rosto transparece, e de quem são as rugas que eu estampo no reflexo longínquo que não entendo como meu? Se eu não sou o que vejo, o que serei então um dia quando eu puder me ver inteiro no espelho da manhã que não sinto mais amarga? Seria um vestígio do ontem e o prenúncio do amanhã, mas sem cortar o mal que converge num até amanhã? Eu me pergunto se o que eu deveria te dar é o meu eu de antes ou esse meu eu de agora, esse que você ressuscitou. Essa beleza que te encanta, qual é?, a dos dias de ontem ou a dos que nasceram após a sua chegada? Enquanto eu não puder me corrigir do desespero de ser um suporte invisível àqueles que trouxe ao meu cuidado, eu provavelmente não serei capaz de te enxergar como um todo que me pertence, pois é difícil aceitar que alguém por fim tenha me trazido à tona desse naufrágio que me isolou durante todo o tempo que conheço de vida. É difícil ser o que já tinha me esquecido sem trair aquele que construí de mim, sem me punir por abandonar não os outros, mas talvez esse meu eu recortado de necessidades alheias e aceitar que hoje é você que me constrói os dias mais lindos que já vi. Hoje eu sou visto de dentro, por olhos crus que não me temperam com seus próprios desejos. Não é que não acredite, mas quase não sei dizer o porquê de tanta dúvida.

terça-feira, 21 de junho de 2011

é água no mar, é maré cheia ô mareia ô, mareia.

Seria apenas lembrança se a vida não tivesse mudado meu destino. Ouvi dizer que a vida valeria a pena se eu não temesse a solidão. Eu a enfrentei. Eu a derrotei, pisei nela com pegadas de gigante. Eu encontrei minha fé novamente, minha fé em dias de modesto ronronar, de festa dançante em noites de quinta-feira, a quinta ensolarada que me inspirou sonhar com você pela segunda vez. Eu sou o mundo que lhe rodeia, a nota impossível de alcançar e lhe digo que as noites não precisam ser mais tão frias, mesmo hoje no primeiro dia de nosso primeiro inverno assim. Porque os outros começaram sem que se fizessem notar. A minha satisfação em lhe abraçar novamente sob a maresia em lua minguante não tem salvação. Não tem tamanho, não tem símbolo, penar, e bola de cristal nenhuma mostraria a moléstia em clarão sem lhe trazer pavor. Eu lhe disse que a minha dúvida não era quanto ao meu pedido, eu não peço, eu mordo, me faço num pedaço de sua carne macia em meu sossego, em meu silêncio, em minhas medidas sem requinte e encharcadas de paixão. Enquanto o vento sopra para longe as suas angústias, eu acompanho surda a paisagem, inspiro cega o cheiro do mar que nos abocanha mais uma vez, nos dando tacitamente a permissão indômita para prosseguir, para finalmente aceitar que se ele não pudesse prever o que se desenrolou sob suas ondas, não nos teria trazido até aqui novamente para sua benção. Enquanto as ondas quebram no meu sonho, o seu se esvai por caminhos distantes, alheio a qualquer passo que escolhemos dar. E eu sei que é o nosso primeiro sim a um mundo inteiro de novenas, de caravelas mercantes a nos embalarem em sonos compartilhados de anseios e de conquistas de ternura e afeto. Eu não seria eu se não lhe desse meu amor como ele se apresentou a mim, eu não seria justa comigo, antes de com você, pois se a vontade de lhe ter é maior que a vontade de me achar, eu espero para me encontrar quando chegar a hora de dizer que quem sabe o passado não tenha sido uma garantia de que o hoje não seria interrompido por amores desfalecidos e inertes, isentos e incólumes, humanamente destituídos dessa luz que nos envolve sem doer. Eu não sabia que para amar era preciso ser reduzida ao meu caráter, ao ruído sincero que o coração faz quando se ajusta ao ritmo de outra pulsação. Eu não sabia que para sonhar com a verdade era preciso lidar com a vergonha de admitir que ele não me ensina nada, mas que eu me livro, isso sim, a partir dele, daquilo que um dia preferi desconhecer.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

pela frente, pelo verso: vamos comê-lo cru.

E se resvalo meus seios em sua pele é você quem pede: me condenam por sentir na carne o que minha alma já traz em desalinho. E se sua voz me guia por quase cantos, quase pontos, quase notas, eu encontro a melodia do teu corpo em compasso com o meu, uma velha mania que eu adquiri com o tempo, tentar entender o que o seu peso me diz, o seu ar expirado, o pulso que me derrama restos dos estilhaços de prazer. E escorrego os dedos no meio fundo de suas costas, dos quadris aos ombros, e os abro para não perder nenhum centímetro do seu deleite. Sinto que meu sangue vai jorrar pelos poros, desidrato, arfo, e o peito fechado não me deixa respirar em paz. Me falta ar. Te devoro em mil palavras, em mil perguntas, em novecentas mil respostas que seu corpo me dá. Seu perfume me contamina, um visco doce que gruda minha pele na sua, um sem número de vezes eu e você, eu e você, e você se torna eu mesma. E como seu prazer que é meu, como seu olhar que é em mim, como sua boca em carícias, seu ventre esmago entre minhas mãos espalmadas. Te invado, uma brisa de ternura não me deixa esquecer quem é você, mas logo me lembro que agora por fim lhe reconheço, e só assim foi possível entender o que o amor me impedia. Não o meu. O meu eu desvendei em uma noite, em outras horas, sem locais, sem pátria, sem minúcias, sem referências. O meu eu entendi com o seu calor no meu ombro, meu hálito em seu pescoço e disse que seria assim o meu rito de luxúria, pois só com você a mesa é pequena demais, o começo é desespero em cores, o passo dado é uma porta aberta, a mão que afaga também me alenta e eu, sou eu somente, enquanto você dorme embaixo d'água. 

sexta-feira, 10 de junho de 2011

você tem sede de que?

Manoel acorda com um beijo de Maria e desperta com um longe sussurrar no pé do ouvido: se despeça. Ele vive sem esperar um dia que se ponha em luminosidade diversa. Ele se esquiva das adversidades do dia que se apresenta, Olá. Ele se expõe às exigências da manhã que lhe exige posturas finitas, amarradas por lenços de papel. Se rasga. Manoel segue e chega afinal ao restaurante que o alimenta todos os dias. Sem suspirar ele cede aos pedidos impacientes de quem tem fome e pensa que talvez os clientes não tenham tanta fome de comer. Ele escreve o que lhe ditam, toma nota dos anseios alheios e se esquiva novamente. Manoel não acredita no amor, ele prefere os vinhos. Os vinhos não se lamentam quando se acabam as garrafas ou quando as rolhas se quebram, isso fazem as pessoas, mesquinhas, humanas, ralé. Não se queixam de serem esquecidos nas adegas,  se mais profundo o sono, maior a expectativa para serem degustados, mais importante o dia de serem desfrutados, eles não tem pressa de se tornarem conhecidos. Não desejam durar para sempre; são o tempo da garrafa, 6 taças elegantes que giram e giram e giram entre os dedos daquele que em seguida lhe afundará o nariz para tentar decifrar sua essência. Que pretensão, eles diriam, malditas pessoas, humanas, mesquinhas, fúteis, ralé. Manoel não acredita na solidão, ele ainda prefere os vinhos. E sempre se serve do último gole das taças recolhidas das mesas no final da noite. Manchadas de batom, de lágrimas, de molho de macarrão. São apenas taças, ele pensa, o vinho é que carrega a verdade de cada um deles. Ele não era capaz de dizer o que traz a saliva que se mistura ao último gole, mas sabia que se ontem sonhou com uma casa de madeira escura, hoje era dia de se molhar de tristeza por um coração que já morreu.

Ao roterista.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

não sei de nada e não sou de ninguém.

Me empresta seu isqueiro? é frase feita de dias de frio próximo a bancas de jornal por aqui no Rio de Janeiro. Ao parar por ali para a pausa diária, a reflexão vespertina, o break entre um pepino e outro para resolver e sempre ela estará lá, a mão estendida a pedir fogo. Se eu soubesse que seria assim, eu não teria nem emprestado a primeira vez. Um círculo vicioso, um mão em mão que se propaga, quase um sabonete de quartel. E eu hoje pensei que várias vezes eu chego em casa, e entre um cigarro e outro, tentando segurar mais coisas do que posso, carrego o isqueiro na boca. Caralho!, o mesmo isqueiro imundo que passa entre os dedos de várias pessoas sedentas pela chama, a minha chama. Cansei de emprestar meu isqueiro, não me pede mais, por favor? Eu empresto hoje aqui e deixo de acender meu cigarro lá. O meu cigarro não o seu ou de um cara desconhecido na rua. Meu fogo, minha chama, meu calor, o que não se dá assim em qualquer esquina ou banca de jornal. Compre o seu meu senhor, direi da próxima vez, ou Aqui do lado vende, compra o bic jumbo que dura mais. Cansei de dividir meu fogo. Daqui a pouco a coisa se estende de um jeito que logo estarão me pedido um trago do meu próprio cigarro. 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

arrasa o meu projeto de vida.

Obrigado pela vista. Acordar assim todos os dias seria como nunca despertar, viver um sonho azul de céu com algodão, água quente e vinho branco no almoço. Eu não queria saber de ontem, amanhã eu nunca vi, mas hoje, o dia era seu, uma rosa vermelha no ombro esquerdo, breves tolices de se contar. Quase não me lembro de ter te dado bom dia, acho que não dormi, sem dúvida ainda não abri os olhos. O inferno é aqui e o paraíso que encontro em seu sorriso é maior do que os vícios da rotina. Ninguém me contou o que seria possível de dizer se outros dias não se mostrassem assim. É que eu esqueci como era abrir os olhos e ter com quem dividir a vida. Não seria tormento prosseguir na natureza que me devolvia essa rotina, eu quase não era capaz de dizer quem ou quando, mas definitivamente o porquê de ser assim; o que eu nunca fui capaz de dizer, as delícias que são as graças de deus, esse mesmo deus que me traiu e me devolveu a falácia. Esse mesmo deus que se envolveu em nosso consolo, um ponto de luz sem destino, uma derrota sem caratér de batalha. Quando sem saber eu fui adiante, olhei a rosa, olhei o encanto da mania de ser muito mais próxima de mim, eu constatei que eu estava em cima do muro e observava a condição, a minha, de um ângulo muito mais favorável. Não, eu não decidi para qual lado descer, eu subi e firmei os dois pés no trecho esguio de tijolos e segui. Eu percebi que o meu destino era estar acima de qualquer suspeita de negligência, eu, vertiginosamente me esquivei da sua beleza e mergulhei no acordo de fé, fé de que tudo seria melhor se eu não soubesse de onde tudo isso vem. Quase não consigo mais dizer o que é meu e o que eu apreendi: apreender, não aprender, demanda observar, caminhar ali, de onde estava, e observar o quão longe eu ainda poderia ir sem deixar meu corpo ir ao chão. A solidão é vã, você me disse. Eu concordei com você e assinei: é vaga, é mera hipocrisia dessa família que chamamos nós. Uma desculpa para nos encontrarmos e sorrirmos. Já tenho certeza de que acordei: eu posso ver o fim da trilha e você, sem sombra de dúvidas, não me espera lá. Você se foi, como um dia que começou ao meio dia e terminou duas horas depois. Um sopro de felicidade que abriu meus olhos para o nada que me rodeava. Um tanto de magia e desespero, sim, mas quanto mais a gente deseja, menos a gente quer. A insatisfação e o prazer são inimigos mortais - uma singela diferença: enquanto eu prossigo, você se destitiu de todas as suas vontades, satisfaz sua malícia em me enganar. A quase vida que eu tive enquanto você navegou por aqui não me perfuma mais. E eu, ainda que tente me esquecer, penso na rosa vermelha e em como ela não me parecia clichê. 

terça-feira, 31 de maio de 2011

e o inverno no leblon é quase glacial.

Faz sol no Rio de Janeiro. Era você nos meus dias novamente. O seu chamado silencioso que me afagava os cabelos pela manhã. Eu não sabia o quanto você havia crescido desde então. Eu era uma vida depois das lágrimas roladas, uma peça de xadrez não trazida de volta ao jogo. Uma vez sem dias de ternura, nem um resquício de cólera, nem um tremor nas mãos. E quando senti a vontade em brasa quente me cantando os olhos eu entendi que era hora de seguir adiante. Um conto comum para crianças inocentes. Seria talvez quase morta, quase viva, sustentaria até sua voz sucumbir em alerta, uma rotina sem desprezo àqueles que te rodeiam. Santo de casa não faz milagres, eu me impus acreditar. Sucumbi ao mormaço das pessoas misturado ao do dia, era pura vida sem liláses a enfeitar. Quando me perdi em tuas fadigas da vida, me adverti, eu sozinha na coragem, de que essa não era a violência que havia escolhido para mim. Eu sei quando seu nome me vem sem querer; me pergunto qual a razão para tanto amor. Sem censuras ao meu desvario, me conforto do saber que não é para sempre o sufoco de me procurar em outros males para tentar crer que meu maior tesouro foi desenterrado de meu próprio baú pessoal. Encontrei junto a você dias que preferi esquecer, para que não pudesse respirá-los cheios do pó da solidão. Eu quis crer que cada dia seria um recomeço, sem que a força que renascia em mim se esvaísse em torpor e medo. Era um barco à deriva, na Baía de Guanabara. Mas hoje faz sol no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

sei.

Eu tinha fome, mas não sabia o que esperar. Gostaria de engolir o mundo como forma de acalmar meu coração. Talvez assim ele se satisfizesse do algo que eu não podia compreender e me trouxesse alguma paz. Eu não sabia que você podia me dizer tantas coisas em tão poucos gestos, mas foi assim. E quando chegou a hora, o dia já quase havia se acabado, num tanto de motivos que eu preferia esquecer. 

Não foi em vão que eu te trouxe aqui. Não foi em vão que eu sorri sem te pedir um dia a mais para me perder no teu colo, chorar e dormir, um quase desespero, um grito abafado no peito, uma virgula que muda o rumo do distúrbio que me provoca e me dá motivos para fugir.

Me deu um alívio pensar que não haveria sequência nos costumes que dividimos. Em tese, não houve qualquer divisão de bens, ou de emoções, mas eu vivi, eu vivi com você cada segundo que eu escolhi. E sem porquê eu me vi num mar de pensamentos retrógrados, um quase ser o que eu já não entendia mais, e me entendi à parte. E a parte de um todo dividido em quase metades. Uma parte sem todo, um pedaço de nada, sem saber-me tudo, eu vivi, naquilo que você chamou dia, eu inventei minha vida. Passei um mês sem o teu sorriso e quando me pertenço ao enfim, você já se foi para o jamais.

Tudo que eu não quis, mas já seria, eu sabia e me despi de todo o meu orgulho para que pudesse celebrar minha vida renascer. Quando eu já não pensava que o clichê pudesse ser atual, quando eu quis não me conter e destruí o meu amor sublime, eu deixei de lado o meu melhor para ser o seu, mesmo sabendo que a frase que você precisava era apenas de alento.

Eu vi quando você se foi, ainda lá, ainda em vertigem, ainda em compasso com o meu choro, o meu desespero de saber que só por hoje eu não seria capaz de conter os rasgos no meu peito. Meu peito que ressonava o grito contido, o medo corrente, um espelho que te refletia. Sem moldura para te formatar. Eu via você em mim, um reflexo perfeito do meu ser, a reprodução exata do que eu pulsava, e cada vez mais distante você ia.

Sem saber como continuar eu absorvo meus soluços, exalo um beijo quente que te guardei, prefiro não jurar mais amor, porque não sei até onde eu posso te segurar. Não sei mais onde cabem minhas mãos, não consigo mais ver se um dia serei capaz de me conter diante da sua aflição.

Eu sei que a voz que me cala é muito mais densa que a voz que me mareia os olhos, então fico. Não há Deus que me motive a ser diferente do que sou agora, nesse hoje que já se despede. Finjo que não há nada mais a dizer e sorrio, levanto seu rosto, beijo seu queixo, num gesto quase fraternal e me despeço. Não sei ouvir adeus.

Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

terça-feira, 24 de maio de 2011

oh boy we still have one last dance to dance.

Um soco me doeria menos. Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio, que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca, porque metade de mim é o que eu grito mas a outra metade é silêncio, foi a primeira impressão do dia. O dia que eu preferia que acabasse ontem de manhã, quando eu ainda não sabia que você viria. 

Não tenho casa mais. Calcei meu sapato preferido, vesti o maior número de peças que meu corpo podia carregar ao mesmo tempo sem desfalecer, uma maçã que me esperava há semanas e um copo d'água antes de sair. E fui.

À noite deitei na calçada mais limpa que encontrei. Tinha vergonha de me escolher assim, não me encontrei onde quis me perder, não soube dizer para onde ia, porque absolutamente não sabia qual o caminho a ser seguido. Ainda que tudo me levasse a estar só, eu não podia dizer exatamente o quanto eu me sentia feliz com a solidão. 

Ela me aqueceu à noite, me deu conforto, me fez menos imunda do que eu me imaginava. Me fez ser eu novamente, uma nota perdida no fundo da bolsa que a gente encontra amarrotada quando precisa pegar um ônibus para casa. A casa que eu não tinha mais. A casa que eu cuidei como se fosse minha, mas era de vocês. A casa que me acolheu quando eu estava perdida. E hoje, eu me perco porque quero, porque preciso me encontrar de novo, como se eu não fosse desse mundo, meu deus do céu, o que eu faço para entender o que se passa aqui e tanto ao meu redor?

Se fosse só achar uma resposta, tudo pareceria quase ideal, por mais que eu pudesse desviar minha atenção dos dias nublados, a vida continuaria a chover, ainda que eu soubesse o porque, não haveria o que será, ou que serei. Não há jeito de dizer o que eu poderia evitar se não escolhesse por mim. Eu não escolho, eu me disponho a ressurgir do nada, como sempre foi. 

E ainda que eu teime ou que eu fuja do meu todo, uma parte sempre permanece, mesmo que os pedaços com o tempo se descolem andarilhos pelo mundo, deixo meus dias vividos no passado e penso que o futuro é um passo adiante. 

Já me acostumei a essa rotina. Eu durmo aqui hoje, encosto minha cabeça no seu peito e me pergunto se amanhã a calçada estará menos fria.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

há sempre um lado que pesa e um outro lado que flutua.

Me sinto como se estivesse recomeçando. Quase um deja vú. O que leva a crer que dessa vez é diferente é porque simplesmente não é, mas por si só uma repetição aprimorada dos caminhos já percorridos antes. O que seria desse amor se não fosse essa viagem comum em épocas diferentes? O que seria desse porém se não nos desse a certeza de que se trata de um momento perfeito em sua imperfeição, imaturo e imprevisível em sua constância e vazio e pleno e repleto de aventuras que se dividem à distância. Não, eu não pretendo me lembrar de você como um sonho interrompido, um brilho de farol que oscila entre um sim e um não. Eu não sou assim, eu não me encontro no desencontro do acaso e simplesmente esqueço o que ele trouxe para mim. Eu sou o encontro do seu eu perdido na estrada terrena, aquele dia que se iluminou com um sorriso de esguelha e que você preferiu congelar no tempo e arquivou no fundo do baú na casa do seu pai, aquele que você visita uma vez por ano para dar feliz Natal. As verdades que eu prefiro guardar para mim, as que você já ouviu durante o sono, essas eu ornamento com os meus enfeites, os que eu venho comprando há meses para a casa que eu planejava só. Enquanto tudo se passa aqui dentro, eu vejo você, do lado de fora do mundo que escolheu, semeando flores em jardins inférteis, buscando um perfume que você já sabe onde encontrar. Não, eu não me proponho a te dar o mundo, estamos nele, você me pede pra te deixar aí, estando assim, querendo estar onde eu estou, e eu te digo que quero que você seja esse lugar.