terça-feira, 21 de julho de 2009

sem prazo dessa vez

E, então, hoje de manhã, levantei num susto ainda com a sensação morna de encaixar o queixo no seu peito com você enrolando os dedos nos meus cabelos e depois escorrer pro lado sem sair do seu abraço com a minha perna enroscada na sua feito uma trança de padaria daquelas bem doces recheadas de maçã com canela.

É isso. Você tem gosto de maçã com canela e foi por isso que me dei conta de que já tinha dormido com você.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

turma de três

Não sou uma pessoa de muitos amigos. Não gosto muito das pessoas, elas me cansam, e isso não é novidade pra ninguém. Aqueles que resistem são vitoriosos, não porque tem a minha amizade, mas porque conseguiram superar as minhas exigências insuportáveis.

Hoje é dia do amigo. Prefiro dizer, que hoje é o dia dos vértices. Desse triângulo às vezes retângulo, às vezes eqüilátero; mas o que importa, na verdade, é que ele nunca vira uma reta. Nem um círculo. E nessa matemática vamos mantendo esse vínculo distinto.

No fundo parece que demos as mãos pra nos restringirmos às coisas que nos constroem como indivíduos e não ao que nos rodeia. O que está fora, permanece fora, não porque não importa ou porque não influencia, mas simplesmente porque não tem espaço. Porque esse triângulo é nosso. Das nossas bobeiras, idéias, putarias, sonhos, desejos, dos nossos passados, da nossa troca.

E foi tão assim, sem querer, que quando vi, já não tinha mais jeito, não dava mais pra sair.

Um post para os vértices, representando, hoje, todos os amigos de sempre.

segunda-feira

Era só mais um dia ordinário na vida de Clarice. Deixou a Bia na casa do irmão e seguiu para o trabalho.

Foi antes do chá preto da manhã, quando comprava os biscoitos pra acompanhá-lo, que Luiza voltou pra sua vida. Assim, sem mais. Desenrolou o cachecol do pescoço, livrando-se dos teimosos cachos, já sorrindo pro rapaz franzino do balcão, pedindo uma média e acendendo um cigarro.

Já eram tantos anos desde aquele dia do portão, que Clarice tremeu e gelou só com a idéia de que Luiza não se lembraria dela.

Mas como Luiza poderia esquecer aqueles olhos?

sábado, 18 de julho de 2009

me sufoca

Ela sentou no canto esquerdo do sofá, em cima de uma perna, a outra com a sola do pé colada no assento, catou um cigarro na bolsa, acendeu, e apoiou o cotovelo do braço direito no joelho, segurando a fumaça entre os dedos.

Ele olhou pras unhas dos pés dela pintadas de vermelho sangue, sem desgrudar os olhos, e disse surpreso Eu não sabia que você fumava.

E ela displicente Eu não fumo. Você quer um também?

segunda-feira, 22 de junho de 2009

o (meu) relógio da (sua) cozinha

Fernanda e Flavia já se conheciam. Uma inacessível. A outra inatingível.

Mas teve um dia em que Fernanda se entregou, perdeu o juízo, sem motivo aparente ou sem precedentes, descobriu que amava Flavia. Não era só uma curtição de bebedeira, ou uma sensação diferente. Ela queria ficar junto, andar de mãos dadas na rua, dar beijo na praça e tomar uma média na padaria. Ela queria dormir grudado, acordar embaixo da coberta, dividir os pijamas e fazer picnic.


A Fernanda não escolheu o melhor jeito de contar isso pra ela, mas, no final, de certa forma, até que funcionou. A Flavia foi pra parede, com as mãos da Fernanda grudadas entre ela. Não sabia se tentava prender a outra ou se se segurava pra não cair. E tudo veio como uma avalanche e elas lá no topo de mãos dadas, só olhando.

E dias depois, a Fernanda recuou e a Flavia cedeu, se esqueceu de todo o resto, e só se ouviam os corações descompassados que quase estouravam e afogavam as duas de dentro para fora.

Então, um dia, a Flavia decidiu que não ia se decidir e resolveu que não ia continuar. Ela preferiu enganar todo mundo, ela e a Fernanda, e tomou sua decisão. E Fernanda não entendeu, não aceitou, chorou e não dormiu por dias seguidos. E a Flavia plácida e impávida, não mexia um músculo do rosto.

A Flavia voltou pra realidade dela e a Fernanda mudou de realidade.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

afraid of making a mistake




no mistakes in the Tango.

not like life. simple.

why don't you try?



quarta-feira, 17 de junho de 2009

itália (fim)

Preferiu uma barra de chocolate com avelãs, mais confortante pro início de noite fria.

Chegou. Jogou o casaco no encosto da cadeira e tirou os tênis usando os próprios pés. Pegou um copo d'água gelada e virou quase num gole só.

Quando finalmente se jogou no sofá, apoiou os pés numa almofada e notou que uma das meias tinha uma mancha escura.

Preciso parar um pouco. Talvez de querer ser todos e não ser nenhum. De parar pra pensar em tudo e tentar achar motivos para não pensar em nada. Parar de me preocupar com o que já passou e dar valor ao que vivi. E não foi pouco. Mas quando tento me lembrar, acho tudo tão distante, que quase não vejo sentido para a maioria das coisas.

Como é chato lembrar só dos primeiros. Primeiro dia na escola, primeiro beijo, primeira transa, primeiro porre, primeiro fora, primeiro salário, primeiro amor.

Aí chega uma hora, que a gente já fez tanta coisa, que começa a repetir. Primeiro dia na escola nova, primeiro beijo ralado, primeira transa com mulher, primeiro porre com amnésia, primeiro fora-fossa, primeiro salário de férias.

Pois é. O amor continua sempre sendo o primeiro, toda vez que a gente esbarra com ele.

terça-feira, 16 de junho de 2009

dança da solidão

E, então, Tereza descobriu quem é o motivo dos carinhos do Beto.

Ficou louca, socou as paredes, virou noites em lugares que nem lembra, tentando fugir da realidade que a engolia. Ela se meteu em todas as roubadas, em milhares de furadas, fingiu pros outros e pra si mesma. Muitas vezes quase acreditou.

No entanto, só ela sabe o esforço que fazia para se sentir acolhida ao lado de tantos outros caras.

Ela fazia isso pra se convencer de que alguém também lhe dava carinho. Ela fez isso diversas vezes e só ela sabe o que era chegar em casa, depois de uma noite de trepada, e chorar baixinho, fingindo não se importar com o Beto na cama com a outra e uma garrafa de vinho vazia jogada no chão.

Ela sofria porque sabia que nada que fizesse mudaria o fato de que ela não era amada por mais ninguém.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

gabriel

Clarice chegou com o raio de sol e com uma garoa fina que a acompanhou em todo o caminho para casa. Subiu os degraus da entrada com cuidado e abriu a porta com as chaves que levava agarrada nas mãos. A escada nunca lhe pareceu mais longa, nunca deu tempo de pensar em tantas coisas num trajeto sempre tão mecânico.

Secou os pés no capacho que lhe dava as boas-vindas, enterrou os anéis de cabelos atrás das orelhas, reparou que estava sem um dos brincos, secou o rosto e ainda hesitou por alguns segundos em enfiar a chave na porta. Girou com cuidado a fechadura enferrujada e empurrou a porta sem pressa. Conseguiu não fazer barulho até tropeçar na ponta do tapete enrolada perto do sofá.

Passou pelo corredor, as pontas dos pés flutuando rangendo os tacos. Entrou no quarto, jogou os sapatos embaixo da cama, deslizou por baixo dos lencóis gelados e deitou-se de costas para Gabriel. O frio de seu corpo fez com que ele se mexesse um pouco, mas não o despertou; foi o suficiente para ele saber que ela estava ali.

Clarice não conseguia pregar os olhos. Tentava esconder as mãos ainda úmidas da garoa embaixo do travesseiro ou entre as pernas.

Pensou no homem de calças compridas abrindo a padaria, no gari tentando descolar o cartaz do poste de luz, na senhora encolhida passeando um cão com roupa e sapatos agarrada a um cigarro amassado de filtro amarelo e nas mãos pequenas e brancas de Luiza passeando no braço do sofá vermelho até encostarem nas suas.

domingo, 31 de maio de 2009

itália

Fernanda voltava pra casa, domingo à noite, nada absolutamente para fazer. Nas ruas ao redor, duas igrejas, cinco botequins, uma sorveteria e uma locadora. As pessoas andando sem notar que as luzes aos domingos ficam sempre mais amareladas e, meio sem rumo, ia pensando se pedia uma casquinha de creme na sorveteria.

continua.

sábado, 30 de maio de 2009

beto

Quando a Tereza conheceu o Beto ela não era assim.

Aliás, quem nunca teve um Beto na vida?

Então a Tereza conheceu o Beto. E ela não era assim. Ela tinha o maior sorriso do mundo e gostava de abraçar as pessoas. Gostava de tocar violão sozinha no quarto e de comer brigadeiro na colher. Todo mundo queria a Tereza e a Tereza não queria ninguém. E o Beto ali.

Um dia Tereza começou a querer o Beto, mas o Beto não podia querer a Tereza. Aí a Tereza saiu com o Carlos, com o João, com o Leo e com o Guilherme, e nem sabia por onde o Beto andava.

No fim, a Tereza ficou com o Beto, depois não mais, porque foram uns tontos. A Tereza sempre achava que os outros eram mais carinhosos que o Beto, e o Beto sempre achava as outras simplesmente as outras.

Aí um dia a Tereza viu o Beto com outra e achou que ele era o cara mais carinhoso do mundo. O Beto olhou pra Tereza e achou que a Tereza agora fazia parte das outras.

terça-feira, 26 de maio de 2009

301

Ela morava num desses prédios antigos que a gente sobe de escada e joga a chave pela janela quando chega uma visita. A sala era grande até, mas tinha muitas coisas espalhadas. A parede da esquerda era uma estante de prateleiras que ia do chão ao teto, dividindo-se entre livros, CD's, uma TV sem controle remoto, uns DVD's jogados e mais uma porrada de coisa empoeirada que a Luiza trazia das viagens. Pra eu me lembrar de todas. Ela já tinha perdido a conta do número de cidades que já tinha visitado.

Em frente, tinha uma janela dessas de abrir para o lado de fora do cômodo. Um dos vidros estava faltando um bom pedaço e ela É bom que sempre refresca. Na parede da direita se via um sofá vermelho em "L" que ficava um assento embaixo da janela. Ela disse que ali era seu canto preferido porque podia apoiar o cinzeiro e o que estivesse bebendo no parapeito de mármore enquanto assistia à TV ou via o movimento da rua.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

bom dia, Tereza

Tereza acordou finalmente. Abriu os olhos com pressa esquecendo-se de onde estava. Cheiro de mofo, álcool, fumaça e foda. Putaquepariu, Tereza! Quem é esse cara?

Começou a catar as roupas pelo carpete imundo. Caralho, cadê minha calcinha? Olhou para os lados e se perguntou como conseguiu trepar num lugar azul daquele jeito. Tudo era azul: o papel de parede rasgado, os lençóis, as flores, até o banheiro era todo azul. Porra, Tereza, isso é hora de cismar com a cor do quarto?

Estava ficando enjoada com aquele cheiro e não achava a calcinha. Foda-se, vou sem. Olhou-se no espelho e congelou. Ficou chocada com seu estado. O olho continuava preto do lápis derretido, mas agora descia pelas olheiras. Tinha umas marcas de dedos no pescoço e do lado esquerdo do rosto, de um jeito que parecia um mapa de sangue pisado. Mas que merda hein, Tereza? Haja pó pra cobrir essa porra! Tentou abaixar o cabelo, mas não deu muito jeito.

Cacete, onde foi parar minha calcinha?! Ai.

Tereza ficou na dúvida se acordava o otário ou não. Otário dormia bêbado babando no travesseiro com a bunda pro alto. Que bunda gostosa hein, Otário? Ela ficou na dúvida também se ajudava com uma grana pra pagar o quarto e tal, mas olhou em volta e pensou que, pelo azul, não ia sair tão caro assim.

Ele paga sozinho.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

mais uma dose pelamordedeus (versão Tereza)

Tereza não aguentava mais enxugar as lágrimas. Se sentia uma idiota, uma tonta. O lápis preto no olho todo borrado, um nojo. Que merda, hein, Tereza? Ele continua um babaca?

Virou o copo e pediu a 5ª dose de cachaça da última hora. Boteco barato, um calor do caralho e Tereza lá. Não desistia de se torturar. Vergonha infinita. Teimava que ainda tinha alguma coisa pra chorar de ódio. Mas não tinha. E ela transformava as lágrimas desejadas em doses e doses de cana.

Olhou pro primeiro otário que apareceu e deu pra ele. Só pra acordar de manhã com ainda mais culpa.


mi amore

Fernanda está apaixonada. Ela conheceu sem compromisso um cara com compromisso e sonhou com ele semana passada.

Ele estava deitado de bruços ao lado dela, sem camisa numa cama branca, grande e macia. O rosto virado para o outro lado, deixava virados pra ela os fios pretíssimos dos cabelos que escorriam um tanto compridos pelo travesseiro.

Ela via o sol radiante e desfilava as pontas dos dedos no sulco das costas dele até ser cerceada pelo lençol que o cobria, quando ele se virou para ela abrindo um olho de cada vez.

Até agora foi só isso que ela conseguiu e, às vezes, pensa que é melhor assim. Saber que não pode. Tocar e não pegar. Fingir que é brincadeira. Desculpas esdrúxulas. Fernanda prefere desfrutar o jogo, sem pressa para conquistar a vitória. Até porque quando alguém ganha, o jogo acaba e aí acabam também a vontade de se arrumar antes de sair, o vazio no peito quando vê e as borboletinhas no estômago que chegam a tirar sua fome.

Se ela ganhar, acabou a incerteza, a dúvida, a liberdade, o fingir que não está entendendo o que acontece, os beijinhos de canto. Tudo passa a fazer parte da realidade, surgem as dúvidas, as obrigações e os questionamentos. E, então, Fernanda não sonha mais, o desconhecido se esgota em muito pouco tempo, ela se entedia novamente e se lembra de que gosta dele, mas que também gosta de muitas outras pessoas.

mais uma dose pelamordedeus

Clarice preferiu não questionar a conta e pagar sem se preocupar em como. Amanhã eu penso nisso. Só queria sair dali. E rápido. E levantou e foi trocando as pernas até a mesa do fundo, onde ela tinha passado a noite quase toda perdida. Luiza.

Enquanto ajeitava o vestido, arrumava os cabelos e tentava achar um beck na bolsa revirada, tentava ainda decidir o que ia dizer pra ela.

sábado, 16 de maio de 2009

silencio




Hoje
Clarice precisa beber,
Tereza se cansou de enxugar as lágrimas
e
Fernanda decidiu se apaixonar.




crónica realista

En la esquina de la Rua do Ouvidor con la Rua do Carmo, hay aquel hombre que veo todos los días. En verdad, es un mendigo, quizás el más sucio que he visto en mi vida. No tiene más que cuarenta años; su pelo y su barba son largos y negros y están siempre enredados y casi no se pueden ver los hilos de tán pegajosos que son.

En frente del restaurante Bon Profit hay unos bancos verdes para sentarse. Mi mendigo pasa la mayor parte del día acostado en los bancos y creo que hay uno que le gusta más. Siempre que lo veo está fumando un cigarillo y en la otra mano sujeta otro apagado. Lo que me llama la atención es que tiene siempre una sonrisa en la cara, no tán corriente en la cara de las personas que caminan por allí. Además, parece relajado todo el tiempo, como si no tuviese que preocuparse por nada, aparte de los próximos cigarillos que fumará al largo del día.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Meursault

"Acabei por não me entediar mais, a partir do instante em que aprendi a recordar. (...)

Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia poderia sem dificuldades passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isso era uma vantagem."

O estrangeiro - Albert Camus

terça-feira, 28 de abril de 2009

ignorance is bliss

Clarice não quer saber quando vão ligar pra ela. Ela quer ficar quieta num cantinho. Pode ser embaixo do chuveiro quente no box apertado onde as lágrimas se misturam com todo o resto e ninguém pode ouvir. Melhor ainda seria ter um cantinho só pra ela. E não é que dá?

sexta-feira, 17 de abril de 2009

hoje a insônia é minha

Tereza foi se deitar com sono e uma dor de cabeça lancinante cuja razão desconhecia. Tomou uma Neosaldina e um Dorflex, pluft, num gole d'água só. Será que isso faz mal, pensou. Ficou por uma meia hora sentindo a cabeça latejar e quase se convenceu de que tinha feito merda. No final das contas, a dor de cabeça se foi, mas a insônia chegou sem pedir licença. Sem dor, sem sono.

Desistiu. Levantou, lançou um naco de queijo minas numa torrada - o estômago já começava a reclamar - e ficou olhando pela janela. E lembrou-se das coisas que estava pensando enquanto deitada na cama tentava pegar no sono.

Lá na cama incômoda, se virou, virou o colchão ao contrário - cismou que o colchão estava viciado - trocou o travesseiro de lado. Dentro em pouco, se viu pensando em sair do corpo para tentar encontrar seu apaixonado. Pensou nele, na casa e na cama dele. Sentiu até o corpo um tantinho dormente, estou desdobrando, depois caiu na real e viu que estava era tendo uns cacarecos de tanto analgésico que tomou. Estou ficando louca mesmo.

E por aí pensou mais. Pensou aquém e além. Pensou que se cansou, no filme a que irá assistir no cinema, no filho que não teve, na amiga que acha que está tirando vantagem, nos dias livres que estão por vir, nas viagens que não conseguirá fazer, nas desculpas que dará, nos abraços que ficarão guardados, nos beijos que nunca serão selados, e na porra da Neosaldina que tirou seu sono pelas próximas horas.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

sessão de domingo

Fernanda levantou ainda meio chapada e foi ao banheiro sem lembrar muito bem do que estava rindo. Quando fechou a porta, se olhou no espelho e sentiu aquele ventinho frio de fim de Outono. Lembrou-se de um filme a que assistiu, no qual uma personagem perguntava para outra se o Verão mexia com a sua libido.

Olhou bem direto sua imagem e se deu conta de como o frio a faz pensar diferente.


sábado, 11 de abril de 2009

episódio 01

Clarice acordou hoje de ressaca, com as lágrimas do sonho ainda na garganta, olhou pela janela e viu o céu. Azul. Azul sem nuvem, sem gaivota, sem barulho. Azul. Cogitou levantar e em um segundo desistiu. Pensou que era cedo demais e acabou pegando no sono.

Quando Clarice resolveu se levantar parecia ser tarde demais. E ficou sem saber o que ia fazer com tanto azul daquele céu. Aí ela percebeu que já tinha visto outros céus talvez até mais azuis do que este, mas que hoje até o esmalte das unhas dos pés parecia mais vermelho e bonito.

domingo, 22 de março de 2009

perdoando deus

" (...) É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. (...) "

04:53


Pensei em ver o sol nascer, mas fiquei com medo de ir sozinha.

sábado, 21 de março de 2009

quinta-feira, 19 de março de 2009

vou de táxi...

Aí eu fui pra Caxias hoje. Inventei de pegar um ônibus da Tijuca direto em vez de ir até o Menezes Cortes pegar a Limousine. (1 x 0) Entrei pela frente toda crente e me liguei que a roleta é atrás - ônibus intermunicipal. (2 x 0) Perguntei pro cobrador/trocador quanto tempo levava e ele: "1 hora". Beleza! ( 2 x 1) 10:30 tô lá, meio atrasada, mas tô. Paguei os R$3 do ônibus comum e sem arcondicionado, sentei no banco alto na janela e lembrei da Limousine. (3 x 1) Lembrei das granadas e mudei de idéia. (3 x 2).

Tô lá, lendo a Época, fingindo que adianta muito. De repente, olhei pros lados e pensei: "Putaqueopariu-on-co-tô?" (4 x 2) Placa: Av. Nova York. Jesus. É pior do que eu pensava. Daí vi uma loja e concluí que era algo próximo ou Bonsucesso itself. A onda Dinho começou a bater e eu pensava: "Fo-deu". Enfim, fechei a revista e tentei mentalizar a Receita Federal pra ver se chegava mais rápido. Foi quando eu vi a placa: "Vigário Geral". Morri! (5 x 2). Aí lembrei das granadas e cheguei à conclusão de que pelo menos estaria no arcondicionado. Passou mais tempo, chegamos. Peraí. On-co-tô? Isso é Caxias? Ai não gente; eu só conheço a rua da pracinha. "Moço, como eu chego daqui na Receita Federal? QUÊ? VIADUTO?!". (6 x 2) Nenhum táxi. (7 x 2) Absolutamente. NE-NHUM. Dinho me visitou novamente, saí andando, parei numa padaria e perguntei pra mulher que me mandou atravessar o viaduto.

Lá fui eu. Atravessei. Parecia que o viaduto me levava pra outro mundo, tal a diferença entre os dois lados. Foi quando eu me achei e vi a Receita! Eba. (7 x 3) Não foi tão difícil. Peraí. "Isso é fila?" Era. A fila pra pegar senha estava NA RUA. (8 x 3) Ok. 30 minutos na fila. "Ah, só tem senha pra 13:15? Não, não. Tudo bem. Que horas são? 11:22h. Não, não. Tá ótemo!" (9 x 3) Bom preciso fazer hora vou dar uma voltinha em Caxias. Uau! Sebo itinerante na pracinha de Caxias! (9 x 4) Passei pelas barraquinhas. Logo na primeira vários da Clarice por R$10, R$15. A paixão segundo G.H.. (9 x 5) Eba. Agora eu consigo ler um livro dela. Que vergonha. Vou levar uns 3 logo. Resolvi dar mais uma voltinha, vi vários outros livrinhos interessantes por ótimo preço. "Vou ao banco porque R$20 não será o suficiente". Notei o céu um tiquinho nublado e umas gotinhas tímidas começaram a fazer uma cosquinha. "Bom que refresca".

Voltei pra barraquinha inicial. "Moço, tinha um livro aqui agora pouco..." "A paixão segundo G.H.? Logo que você saiu um rapaz veio aqui e levou" (10 x 5) "QUE??? MENTIRA! NÃO É POSSÍVEL! NÃO TEM OUTRO?" "Não, era o último" (11 x 5) Meu Deus. Que mais falta me acontecer? Foi aí que começou a tempestade do século, vindo chuva e vento por todos os lados, eu com o dinheiro na mão pra pagar os outros 2 livros dela que ia levar pra compensar, tentando me proteger dos raios embaixo da tenda e não me molhar tanto.

Quando eu vi que não ia adiantar muita coisa, caí na real, aceitei o dia Maysa, parei de contabilizar (43728947239 x 5), ajudei o cara a recolher os livros quase tão molhados quanto eu, e decidi que, com granada ou sem granada, eu vou mesmo é de Limousine.

Ou então vou com a Angélica mesmo.

quarta-feira, 18 de março de 2009

ovelha negra

hoje eu descobri a existência de champanharias.

coisa chique bein.

terça-feira, 17 de março de 2009

merda

errei o link do post anterior.

mas agora corrigi.

:*)

segunda-feira, 16 de março de 2009

this is my heart

não quero

Às vezes eu me canso das pessoas. Elas se esgotam, eu me esgoto delas. Que triste. Imagine se todas as pessoas ao meu redor se cansassem de mim também?

Alô?

crepe de nutella

"Eu juro nunca mais laricar tanta pizza e tanto crepe, até chegar a atacar meu figadozinho e não consegui trabalhar no dia seguinte de tanto pi-ri-ri."

domingo, 15 de março de 2009

S2

Às vezes eu esqueço o que é o amor.

Ontem eu bem lembrei. Passear no shopping, se encontrar pra tomar um sorvete diferente, levar bronca, andar abraçado, ganhar cafuné, mudar de assunto porque tá chato, sentir saudade do cheirinho do shampoo.

São 11 anos de convivência, 9 anos de música, 7 de parceria, 6 de paixão incondicional, 6 da primeira briga, 5 da primeira reconciliação, e muitos, muitos anos ainda que eu vou te abraçar e lembrar que não estou sozinha.

sexta-feira, 13 de março de 2009

um capuccino, por favor!



O café no CCBB saiu caro.

Novas aquisições para o fim de semana chuvoso.
Maldita livraria.

quinta-feira, 12 de março de 2009

o homem que confundiu sua mulher com um chapéu

Passei a mão em todas as lombadas coloridas e não sabia o que levar. Escolhi um para presente. Mas não para mim. Foi quando me dei conta de que nenhum daqueles livros ia dizer o que eu queria ouvir.

quarta-feira, 11 de março de 2009

minha aventura

Nas paredes escrevia o seu nome
Pra tentar esquecer
No espelho assistia à própria dor
De lembrar
Na sala vazia, a televisão ligada,
Uma tentação de existir
Na cama, sem dono, perguntava
Como tudo foi acabar

Minha aventura
Pra onde você foi?
Pra onde você vai?

Se ao menos, tanta coisa que se
Vive junto não evaporasse assim
Se, ao menos, na hora dela me deixar
Precisasse um pouco mais de mim
Se, ao menos, no escuro eu
Conseguisse apagar
Dormir sem sonhar, apenas
Dormir sem sonhar...

Minha aventura,
Pra onde você foi?

blá blá blá

segunda-feira, 9 de março de 2009

abra los ojos

Cheguei. Dez minutos antes do combinado. Que idiota. Não acredito nisso. Só faço papel de otário. Oi, Traz uma cerveja pra mim. Eu não devia beber. Foda-se. Ela não vem, sabia. Claro que não vem. Idiota. A cerveja tá quente. Deixa eu tirar isso. Tá quente ou sou só eu. Merda, não posso fumar aqui. Vou descer, foda-se, ela não vem mesmo. E se ela estiver subindo. Porra e cheiro de cigarro vai ser foda. Oi, e ai? Que conta de novo. Oi, tudo bo-om? E a-í? Não. Merda. Ela vem eu tenho certeza. Eu conheço ela. Merda. Vai entrar daquele jeito. Câmera lenta. Caralho. Tá agarrada no celular pra variar. Caralho não acredito. Me abraça. Que bom. Abraçou. Não acredito. Não ri! Ai. Merda. Desculpa, eu tô meio nervoso.

Pára tempo!
Acorda.

quinta-feira, 5 de março de 2009

at the beach with headphones


try it.

oh take me back to the start

Voltando do dentista, meu corpo acha que é nórdico, calor, calor dos infernos, passo pela Travessa do Ouvidor, 4 caras, caras de hippies, tiro um dos fones pra tentar ouvir mas não consigo entender o que eles estavam tocando; sigo um pouco mais e vejo um crime, uma lata de Skol gigante em frente a vários chopps Devassa geladíssimos.

how do you live as a fugitive?

E vinha voltando para casa, Rio Branco, cruzando Presidente Vargas, cansada, ouvindo a música e pensando e me deparei com algumas centenas de confetes ainda grudados no asfalto e senti saudade do carnaval. Corre pra casa.

terça-feira, 3 de março de 2009

let me take you down

Disarm you with a smile
And cut you like you want me to
Cut that little child
Inside of me and such a part of you
Ooh, the years burn
Ooh, the years burn

I used to be a little boy
So old in my shoes
And what I choose is my choice
What's a boy supposed to do?
The killer in me is the killer in you
My love
I send this smile over to you

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

pure lunacy

E eu vinha tão distraída ouvindo a música e pensando e me lembrando de tantas coisas boas, que por um segundo me distraí, parei no sinal e esbarrei nas minhas lembranças. Elas olharam para o lado contrário, ainda com a sensação da minha mão na sua, levando-a aos cabelos, num gesto que me fizeram reconhecê-las e atravessar a faixa sem olhar para trás, como se deve fazer com tudo nessa vida.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Bertrand Russell

"There is much pleasure to be gained from useless knowledge."

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

¬¬

Cheguei do almoço com a pança cheia. A calça já tá um tantinho justa em função dos 4 malditos quilos que ganhei desde que comecei o estágio.

"Acho que vou abrir a calça um pouquinho..."

BAD BAD IDEA, LOSER!

tuuu-tuuu (telefone toca. chamada interna.)

- Alô.
- Oi, sou eu. (BIA)
- Fala, monstra.
- Vou mandar imprimir umas paradas aqui da faculdade... Pega pra mim aê!
- Não, manda agora não que tem gente lá...
- Tá.
- ...
- ...
- Tá, pode mandar.
vvvvv... vvvvv... (imprime)
- Esse aqui é o seu blog?
- É pô.
- Você escreve anonimamente?
- Não, Bia. Tá vendo a foto da bunda da Mischa Barton?
- Hã...
- Tem uma fotinho minha do lado...
- Ah, é...
- Sua múmia.
- AEHUHEUAEAEHUEA... Vou mandar o resto...
- Tá.
vvvvv... vvvvv... (imprime)
(olho para o lado, Paty-fofoqueira na impressora)
- Ih CARALHO!Peraí...
(largo telefone)
(levanto correndo - OBS: calça aberta + calcinha BEGE aparecendo.)
(o chefe sai da sala na minha direção)

¬¬

- Tá, Bia, peguei já.
- Valeeeu.

¬¬³

toc toc toc toc (salto da Bia)

- Bia, QUE QUE TU TA FAZENDO AQUI EM CIMA?

¬¬³²³²³²³²

menos 3?

Já deve fazer um mês qua não volto de metrô. Motivos óbvios: estação Carioca às 18h. Como fiquei pelo Centro até 19:30h e queria chegar rápido em casa, pensei: "Por que não o metrô?".

Pois bem. Lá estava eu. Tentando ler o 3º best-seller do mês, de pé, um pouco apertada entre as pessoas. E foi quando eu reparei.

Em um dos bancos cor de laranja, um senhor de uns 60 e poucos anos segurava uma menina no colo. Dormia tranqüila com a cabeça encostada no ombro dele, totalmente alheia ao cansaço ao redor. Ele passava mão em seus pouquinhos fios de cabelo fininhos de bebê. Uns 5 minutos depois eu notei que faltavam na mão dele as primeiras falanges de 3 dedos - polegar, indicador e médio.

Mas,

que diferença isso faz(ia) para ela?

terça-feira, 29 de julho de 2008

na capela

1. você tem 8 anos.
2. você tem 8 anos e está na capela da sua escola de freiras.
3. você tem 8 anos, está na capela da sua escola de freiras e são 13:30h da tarde.


"Vamos fazer um exercício de meditação. Feche os olhos. Você vê uma casa. Você vai lentamente entrando na casa..."

Sou eu. Sou eu de pé, mas não me lembro a minha altura. Provavelmente mais alta do que eu era. Eu olho pros lados e vejo. Uma floresta e um pedaço descampado. E no meio a casa. Era uma casa pequena e amarela com um telhado de telhas que de tão novas eram quase vermelhas. Agora não tenho certeza da cor das paredes. Tudo bem, eu chego até a porta. É uma porta de madeira e quando eu a abro vejo que do outro lado da casa na mesma direção também tem uma porta que está aberta. Vejo a luz entrando fazendo um reflexo meio de lado, formando um corredor. Eu olho e me vejo de pé do outro lado.

"Vá entrando em todos os cômodos da casa..."

Eu ando. Viro para a esquerda e vejo um quarto não muito grande e decido entrar. Tem uma cama de casal, com uma colcha de patchwork claro, um armário antigo e uma penteadeira. Tudo em madeira clara com nós castanhos. A cortina é verde claro. Eu saio. Entro no quarto em frente. Nada. Olho pro lado. Nada. Tudo é branco brilhante. Decido sair pra não me cegar com aquela claridade.

Abro os olhos por um segundo, como se tentasse fugir um pouquinho da luz e estou de novo na capela. Todos estão de olhos fechados, inclusive a professora-irmã. Pela báscula no alto da parede eu vejo o sol tinindo lá fora e uns pombos no telhado. Olho ao redor e vejo umas imagens. Só elas e eu tinham os olhos abertos. Encarei-as, mas acho que elas não gostaram muito.

Fugi do branco e segui em frente. Me vi de novo diante da porta dos fundos, mas já não havia ninguém lá de pé. Quando passei do portal, vi um campo de flores e a floresta lá no fundo. Eram tantas flores que por pouco não notei uma pessoa sentada no meio delas. Fui andando tentando não machucar as pétalas. Vi uns cachos escuros e uma camisa branca e vi meus dedinhos se esticando pra encostar neles.

"Agora vamos relaxar e nos concentrar na luz que entra pela janela..."

Luz? Que luz? Janela? Não. Ei. Peraí.


4. você tem 8 anos, não se esqueça.

domingo, 25 de maio de 2008

in the back seat

(00:50) Deixa de besteira vai... Eu sei que você não tá falando sério. Volta aqui... Abre os olhos vai... Pára de besteira. Você disse que tinha uma coisa importante pra me contar. Hein? Eu tô aqui. Aonde você vai? Tô ouvindo um barulho estranho... Peraí!, (2:00) volta, não me deixa aqui sozinho. Tá escuro. Tá muito frio. Cadê você? Cadê a luz? Que barulho é esse? (2:29) Peraí! quem é você? Eu não sei quem você é. Sai daqui! Me deixa em paz! Sai! Sai! Me solta! Pára! Eu não quero você aqui. Traz ela de volta. O que foi que você fez com ela? Cadê? Alguém me ajuda. Tô com muito frio. Tô com sede. Não consigo ouvir nada. (03:02) Olha lá! Olha, é aquela moça ali. Chama ela, chama ela! (03:28)Volta aqui, volta... Eu prometo, eu prometo. (03:40)Não me deixa aqui sozinho. Fala comigo. Ei. Fala alguma coisa. Por que o silêncio? Deixa de besteira vai... Eu sei que você não tá falando sério... (04:09)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

então

E quando acordou de manhã já não sentia mais a raiva do dia anterior. Na verdade, o que latejava era uma vergonha absurda de tudo o que tinha dito. Da situação que criou para si mesma, que sabia que poderia acontecer, mas que por vã inocência ainda cria na possibilidade de mudar. Porque no fundo sempre soube que ninguém muda ninguém e, no entanto, insistiu em tentar, fingindo que não se incomodava, não se importava, que era superior àquilo, que tinha aprendido a lidar com tudo.

*

E quando o cachorro latiu lá fora, já sabia o que lhe esperava. Um pedido de desculpas gordo de tanto pesar, mas que já não surtiria mais efeito algum. Porque depois de tantas vezes ralar o mesmo joelho, abrindo a ferida sem mesmo curá-la, não haveria mais remédio que pudesse fechar a carne viva sangrando.

*

E quando sentiu o cheiro de café, levantou correndo da cama. Ao entrar na cozinha, a viu. Os cabelos molhados ainda pingavam na camisa que roubara caída no chão do quarto e que a engolia fazendo quase um vestido. E não esperava nada mais a não ser que ela pulasse em seu pescoço, cruzando as pernas ao redor de sua cintura, com o gosto do café melado e da manteiga que escorria do pão.

*

E quando chegou em casa quase não pôde acreditar. Os armários vazios não deixavam dúvidas de que realmente havia partido. Sem volta. Sem retorno. Sem adeus. Sem olhar de despedida. Sem gritos. Sem ofensas. Sem última transa. Sem levar os vícios, as viagens, os sorrisos e o par de chinelos verdes de que tanto gostava.

*

E quando o ano virou as lágrimas escorreram sem entender o porquê. Olhou para os lados, viu todos e não reconheceu ninguém. Talvez porque os olhos estavam turvos. Mas muito mais provavelmente porque sabia que faltava alguém que ainda iria conhecer.



terça-feira, 13 de maio de 2008

constantly talking isn't necessarily communicating

Queria te dizer que é muito bom gostar de você. Eu queria te dizer isso. Mas eu deixei pra lá. Pois é, ontem eu acho que preferi guardar pra mim. Medinho, né? O que é uma pena, porque hoje eu já não tenho certeza. É, eu acho que é isso. Não, não, tá tudo bem. De verdade. É só essa dúvida que me corrói. Ah, esse friozinho na barriga né? Então. É isso. Me liga mais tarde? Preciso te contar uma coisa. Enfim. (Será que eu mudo de idéia até lá?).


¬¬

quinta-feira, 8 de maio de 2008

and here we go again

Prazer, meu nome é Roberta. Hoje eu descobri que só nos Estados Unidos estima-se a existência de 13 pessoas com os mesmos nome e sobrenome que eu. Eu tenho 23 anos e me sinto velha. Às vezes eu não consigo me imaginar com 50 anos. Tá, eu nunca consigo me imaginar com 50. Acho que não preciso também. Eu mudei de casa 5 vezes em 3 anos; consegui voltar para o mesmo bairro. Eu tenho um carro e o nome dele é Euclides. Euclides da Cunha. Uma homenagem a uma camisa que a Ju tinha quando a gente não podia nem imaginar que eu teria um carro. A Ju é o meu rolinho de sofá. E metade do meu coração.

Eu tenho um casal de irmãos que são a minha família. Amo vacas. Gosto de dançar e de ouvir música. Gosto também de teatro, mas não tanto quanto gostaria. Prefiro o cinema. Adoro dramas. Talvez para não me sentir tão só na minha melancolia. Ela me persegue. Adoro. Gosto de dias de outono como os dessa semana.

Eu sempre acho que não tenho amigos, mas no fundo eu tenho. Eu só cobro demais deles. Na verdade, eu cobro demais de mim mesma. Eu crio verdades e as sigo. Sabe como é, "uma mentira repetida com veemência...". Eu não me permito. Crio barreiras. Tenho paciência com quem não merece. Tenho mania de cuidar dos outros; sentimento materno maldito.

Finjo que sou forte pra caralho. Sou insegura. Pra caralho também.

Fiz uma dieta. HOHOHOHO! Estava gordona e perdi 8kg. Até que perdi mais do que imaginava. Agora nem lembro mais de como era estar com aqueles bracinhos gorduchos. Mas só consegui por causa da Maulinha. Ela me incentivou.

Eu adoro viajar, mas também não viajo tanto quanto gostaria. Nunca andei de avião e também não faço idéia de quando isso irá acontecer.

Eu levei 6 pontos na mão direita quando eu tinha 3 anos. Escorreguei numa microgotícula de água e cai com um copo de vidro na mão. Nunca quebrei nenhum osso, mas tenho um dedo meio tortinho na mão direita. Jogando basquete. Sinto falta de jogar. Aliás, sinto falta de ter 14 anos, mas isso é passado.

Tenho fumado demais essas semanas e isso não é NADA legal. Eu gosto de fumar; tem gente que não acredita.

Eu fui apaixonada por um professor na faculdade. Mas eu tinha 19 anos e ele é gay. Foi uma das poucas matérias que eu prestei atenção na PUC. Acho errado esse negócio de ter que entrar na faculdade com 17 anos. Eu hoje sou bem mais feliz estudando e não é só porque descobri algo para que tenho talento. É porque nada paga o tempo e as coisas pelas quais a gente passa.

É eu acho que tenho talento. Na verdade, são poucas as coisas que eu acho que faço bem. Essa eu ainda não faço, mas em 3 anos estarei lá assinando petições. Eu não gosto de ser elogiada, mas gosto de ser reconhecida. Não é a mesma coisa. Até porque, nem sempre um elogio é verdadeiro, enquanto o reconhecimento não necessariamente se traduz em palavras.

Não gosto de emprestar minhas coisas, a não ser que EU ofereça. Ou que eu esteja de bom humor. Durmo tarde e não consigo acordar cedo. Tenho medo de escuro e não gosto de dormir sozinha no quarto com a luz apagada. Eu me escondo com meu cobertor. Ele é super poderoso e sempre me salva das almas penadas.

Não uso saltos. Acho deselegante e machuca meus pezinhos 39. Além disso, não sei andar muito bem em cima deles. Prefiro os tênis. São macios e quentinhos.

Falo inglês razoavelmente bem e fingi ser professora por dois anos. Aprendi muito mais do que ensinei. Estava estudando espanhol, mas vou dar preferência ao francês semestre que vem. Um dia, oxalá, falarei inglês, francês, espanhol, alemão e italiano. Planos para um futuro bem distante.

Não uso cabelo comprido. Sinto muito calor. Cortei a primeira vez aos 14 e em 10 anos só deixei crescer uma vez. É uma briga, porque as opiniões se dividem, "curto é melhor", "comprido é mais bonito". No momento, estou escolhendo o mais prático.

Não sei falar de mim. Só contar causos. Só consigo mesmo com a minha querida psicóloga, mas, no momento, não estou podendo ir. Contenção de despesas. Duas sessões por semana está meio caro.

Sou louca por palavras cruzadas e amo ler. Choro e tudo. Compro livros que ficam na estante por anos, até que um belo dia ele esteja maduro pra eu poder ler. Eu roubo livros dos outros, mas nem é por querer. Os livros me adotam. As pessoas se vão e eles ficam por aqui.

Detesto andar. Efeito Jaiminho. Eu sou filha do Jaiminho. Quando estou bem, gosto de ficar em casa. É até um termômetro. Quando não sinto vontade de sair, é porque estou bem. Eu acabo me bastando um pouco.

Sempre começo blogs. São uma ligeira válvula de escape.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

believe

I saw you yesterday. And the day before, and before, and before, and before. I saw you last Friday and I've been seeing you for the last 10 years. I saw you yesterday but only in my head. Maybe you were there. Because I couldn't see you with my eyes but with all the rest of my body. I saw you this night too, but in my dreams. You called me and we've talked as we used to.

I see you everyday. In my daily routine. In my clothes, my books, my cds. In places I visit. In songs I listen. In movies I watch. I pretend you are beside me and we are sharing that moment. I see you there. But you are not with me. I see you and I want to see you everyday. When I open my eyes at the very first hours in the morning and when I close them late at night. I want to see you as you really are. Every move, every touch. I want to see you not only with my eyes, but with my entire body. I want to see you again and again. I want to keep in my mind more than that smile you used to give me. That one that makes my heart so small and hot.

And why is that distance? How could you be so selfish? How can't you see all the things we're leaving behind and the ones we're missing? I knew I wouldn't stand long. That sooner or later i wouldn't handle this anymore.

Will it be fair?

terça-feira, 16 de outubro de 2007

so I disconnect

Vítimas e escravos do mundo virtual, a vida hoje depende das malditas máquinas. Novidade? Nenhuma. O que eu vejo hoje é uma quantidade enorme de pessoas carentes de afeto e com uma necessidade enorme de serem notadas, nem que para isso tenham que se utilizar de personagens que incorporam para não terem medo da rejeição. E é assim que se vive. No mundo da internet, do orkut, dos blogs e fotologs podemos perceber como as pessoas exibem projeções falsas de si mesmas, fingindo serem bem resolvidas, independentes e felizes. Publicam fotos e frases. Comunidades que espelham suas personalidades. E eu me pergunto: até que ponto é verdade?


A internet tornou-se mais um mecanismo de atingir as pessoas. Quando queremos nos mostrar felizes ou tristes e queremos que alguém - ou muitos alguéns - saiba. Quando queremos mostrar que estamos solteiros ou exibir o novo namorado. Quando cortamos o cabelo. Compramos um carro novo. Fazemos uma viagem. É uma carência sem limites que tentamos suprir da maneira mais inútil e superficial.


Hoje não escrevemos mais cartas, passamos emails. Não ligamos para nossos amigos para tomar um chopp, deixamos um scrap. Não vamos às suas casas para darmos um abraço, não sentamos juntos para ouvir uma música ou para ver um filme. Temos 683 pessoas adicionadas no orkut e no msn e não sabemos qual a cor de preferida de nenhuma delas. Ou o nome da mãe. Sabemos o que elas exibem nas comunidades mais esdrúxulas do mundo. Mas quantas vezes paramos para perguntar alguma coisa.


O mundo está mais interligado, mas a cada dia se torna mais impessoal. E o problema está justamente aí. No fato de que não adianta nada lermos e aprendermos tudo via internet se não temos com quem debater ou discutir. Porque máquina alguma pode substituir a verdade de um pensamento humano.


E eu afirmo: as pessoas hoje querem estar conectadas, mas de forma alguma relacionadas. Relacionar-se dói. Há riscos. Perigos. Medos. E para que sentir tudo isso se posso me esconder atrás de uma foto bonita de Photoshop? Ou da janela do msn? Não há mais olho no olho. Tudo é dito e falado e dividido por um tela maldita atrás da qual rezamos para que esteja realmente a pessoa que você acha e não o ex-namorado dela te sacaneando. Ou a mãe tentando descobrir algum podre.


Eu visivelmente sou uma vítima desse fenômeno. Mas eu juro que eu tento evitar ser dependente dele.

domingo, 30 de setembro de 2007

Lá lá lá lá-laiá...

Domingo. O pior dia da semana. Estava assistindo ao Saia Justa outro dia e a Monica Waldvogel disse que uma das coisas que ela gostaria de fazer até o fim da vida era aprender a aproveitar melhor os domingos. Eu também. São dias longos e quentes e noites frias e solitárias. A noite de domingo parece o último dia da minha vida, eu penso e repenso tudo o que deixei de fazer na semana anterior e tudo o que terei que fazer na que está começando. E é triste. É deprimente. Saber que tudo volta ao que era antes e que a vida vai continuar a andar da mesma forma. Que apesar de a semana ser nova os dias continuam os mesmos, o trabalho, a rotina.
Eu odeio rotina. Odeio a continuidade entediante da vida. Não me sinto feliz em ter certezas em tudo. O que é um paradoxo, pois sou a pessoa mais insegura do mundo. Como já foi dito, nesse mesmo bendito blog, o grande prazer da vida está na imprevisibilidade. Mas, até que ponto? Até que ponto a incerteza pode chegar? Até onde precisamos de garantias?
*
Acredito que as garantias são necessárias até conquistarmos confiança. Até estarmos plenamente seguros de nós mesmo. É o pêndulo Schopenhauer. O maldito tédio e a satisfação. Estamos sempre em busca de algo mais, de algo novo, além. Não existe a felicidade plena, a visão pessimista de fato. O que ocorre é esse tédio constante que solvemos com uma satisfação temporária que em algum breve momento dará espaço para uma nova necessidade, se assim pode ser chamada, visto que no fundo é só mais um de nossos caprichos humanos.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Então...

... sabe o que que é?... não me leve a mal, mas eu acho melhor a gente parar por aqui... (...) não, não... não é isso... na verdade eu não sei mesmo como explicar... (...) hmm... (...) NÃO!!! de jeito algum... o problema é comigo mesmo... é essa ansiedade que me consome... (...) eu não sei muito esperar, entende? acabo me afobando com as coisas... (...) eu sei que isso é ruim... mas não consigo evitar... eu sou assim mesmo, tento isso o tempo todo, mas é com tudo na vida, sabe? (...) ai não sei... tentar? mas isso demora... e eu não sei esperar, lembra? (...) ah, mas você não fala nada! (...) não, não, imagina! tem sido ótimo... mas é que eu acho que a gente é tão diferente... (...) como? ah não sei explicar... diferente... aquele dia do cinema por exemplo... (...) ah, aquele que eu queria ver aquele filme do Festival... (...) não, lembra? (...) isso! é... que a gente acabou indo ver aquela comédia hollywoodiana (horrorosa...)... (...) pois é... coisas tipo essa... (...) eu sei... tb adoro vc... (...) é, a gente se diverte (na cama)... (...) não, vc roncar não me incomoda (imagina!!!)... (...) olha só eu não quero a sua ajuda! eu não preciso da ajuda de ninguém! (...) é, é deve ser! sou independente demais pra vc! (...)(...)(...)(...) HA-HA-HA! muito engraçado! pior vc que não dá um peido sem ligar pra mamãe! (...) olha aqui meu bem, eu não tenho culpa se vc não é assim como eu... (...) arrogante? meça suas palavras! tá pensando que tá falando com quem? (...) é deve ser isso mesmo! (...) medo de ficar sozinha? olha só, eu não dependo de ninguém, tá? (...) hmm... (...) hmm... (...)(...)(...) ah tah, agora vai jogar na minha cara... beleza... (...) sabe o que te falta, é um pouquinho de cultura! (...) é, é isso mesmo! sinceramente eu não agüento ter que ficar assistindo tv a porra do fim de semana todo... se ao menos fosse alguma coisa de útil, mas não dá pra ficar falando de Big Brother... (...) olha aqui meu querido, Big Brother pra mim é o do George Orwell... (...) óbvio que vc não conhece... (...) pseudo-intelectual? além de tudo vc é um invejoso... (...) não, eu não to te comparando com ele não, até pq seria muito cruel da minha parte... (...) (...)(...) bom, então, resumindo, pq eu to pagando essa ligação, já deu pra ver que não tá rolando né? (...) é a culpa é minha mesmo... pq eu penso! (...) olha só, silêncio é pros fracos... (...) hmm (...) hmm (...) ouvir o silêncio? eu tenho cara de cachorro pra ouvir apito no silêncio? (...) não, eu não tenho que mudar não, se quiser mude você! (...) ué eu sou assim, muda você oras! (...) ah vc tb é assim... (...) é... até que vc não tá tão errado não... (...) hmm (...) hmm, sei...(...) não, não, claro... (...) eu entendo... deve ter sido difícil mesmo... (...) (vergonha³) (...) claro, poxa me desculpe... (...) é eu sou assim mesmo... (...) é essa ansiedade que me consome... (...) como eu dizia, o que vc vai fazer hoje à noite?

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

I wish I knew how to quit you

"Se alguém me perguntasse hoje, a dois dias dos meus 23 anos, qual momento eu escolheria para viver de novo eu diria, sem precisar pensar por um segundo sequer, o ano de 2003. Não porque só vivi coisas boas, pelo contrário; na verdade foi um ano de coisas ruins também. Ainda não sei dizer se escolheria todo o ano ou alguns meses. Ou escolheria dias. Horas. Segundos. Eu escolheria conseguir viver com aquela intensidade de novo. Ver as cores brilhando como papel celofane. Sentir o corpo dormente. E o coração batendo tão forte que dá para ver o peito latejar.

Eu sinto falta disso. Sinto falta do gosto doce daquilo tudo. Do cheiro das flores. Às vezes penso que tudo isso acabou e que não, não dá para sentir nada de novo. Que como tudo na vida, passa, passa para dar lugar a outras coisas. Novas, que substituem, que ocupam nosso tempo, nossas cabeças, que nos trazem prazeres e desprazeres, que nos fazem felizes. Penso que devo estar envelhecendo e perdendo a ternura, secando, esfriando. Mas não será cedo demais para isso?"

*

Há pouco tempo venho redescobrindo a liberdade. A falta de compromisso com uma pessoa que conte comigo. É um egoísmo bom, saudável; amor-próprio, de fato. É poder sentar no metrô ao lado de uma pessoa que você conheceu há horas e falar bobagem; é aceitar um convite para sair; é fazer opções na vida sem ter que consultar ninguém.

*

Muitas vezes eu acho que estou compartilhando um momento com alguém. Na verdade, entretanto, em todos eles acabo me sentindo só. Eu vejo, pouquinho tempo depois, que o que eu senti foi só meu.

É impossível conhecer alguém. E, no fundo, o grande prazer vem nisso, na imprevisibilidade da vida; em não saber com absoluta certeza e segurança o que o outro está sentindo. Curiosidade é uma palavra incrível.

*

Algumas coisas são surpreendentemente as mesmas sempre e nos trazem sempre as mesmas sensações. O que muda são os efeitos que elas nos provocam, que variam de acordo com o que estamos vivendo naquele momento. O problema gira exatamente em torno desse efeitos, já que o meu momento não é necessariamente o momento do outro e daí temos as tão comuns questões de timing. Assim, o efeito que uma coisa provoca em você não é o mesmo provocado no outro.

*

É estranho encaixar na minha vida de cores opacas um dia cintilante. Minha cabeça processa as informações a uma velocidade próximo ao incrível e fica com aquele dia grudado lá passando como um filme bom que se repete por uma semana no mesmo canal de TV. Acho que no fundo é isso. Um filme bom que posso ver quantas vezes quiser. Que, dependendo de como eu estiver no dia, vou perceber um detalhe diferente, vou rir e chorar de diálogos diferentes; meu coração vai bater mais rápido em cenas diferentes. Mas, como todo bom filme, excita quando começa e deixa saudade quando acaba. Fica sempre preso ao que está ali. Nada mais, nem diverso, pode ser vivido, só o que já está ali. E esse limite que o filme traz dá um pânico, uma sensação de afogamento um não saber incômodo, do que aconteceria com aquelas personagens se alguma daquelas cenas que se repetem infinitamente pudessem ser mudadas; do que aconteceu com elas depois que o filme acabou; do que irá acontecer se houver uma parte dois.

Mas não tem parte dois. Não tem como mudar as cenas. Só dá para acelerar o filme, cortar as cenas. Assistir em câmera lenta. A história é sempre igual; o que muda são os efeitos que elas causam.




terça-feira, 4 de setembro de 2007

i'm only happy when it's complicated

É verdade. Eu gosto do que é complicado, do que é difícil, do que não está ao meu alcance. O fácil não me interessa. O fácil é simples, não tem conquista, não se valoriza, não se tem medo de perder. Isso é uma idéia medíocre, esnobe e egoísta. Porque se todas as pessoas se entregassem tudo seria mais honesto e sincero. Mas não. O grande lance é a disputa, porque é isso que acontece. As pessoas disputam, quem vai ceder primeiro? Ou então o medo motiva a não se deixar cair na lábia do outro. Mas, afinal, quantas oportunidades perdemos em nossas vidas por dispensarmos o fácil e cairmos na tentanção de lutarmos pelo difícil, que, na maioria das vezes, não vale a pena? Deixa de ser hipócrita, você também é assim! Eu não sou a única, nem nunca vou ser.
Eu tenho uma capacidade incrível de idealizar. E isso é péssimo. Eu não me permito, tenho uma dificuldade absurda de lidar com o novo. Sim, eu já li Quem mexeu no meu queijo, por mais que eu odeie livrinhos de auto-ajuda. No fundo, eu os odeio exatamente por isso: eu entendo, sei que tenho que mudar, mas não consigo e me revolto. E é assim que eu vivo. Dentro das minhas idealizações, perdendo oportunidades diante do novo, tentando me livrar de paradigmas criados por mim mesma ou pelos outros e conseguir desconstruir uma opinião sobre algo ou alguém. O meu cérebro desenvolveu essa habilidade, seja por defesa ou sei lá o que. No final, é péssimo de todos os jeitos. Porque eu consigo transformar um merda num rei, um super-herói num Zé-Ninguém, e saio prejudicada das duas formas.
O pânico é estar andando em círculos, já que todos os meus problemas giram em torno desse mesmo maldito defeito que não consigo amenizar. Quem sabe um dia ele abre em espiral.

sábado, 1 de setembro de 2007

citè

Não é um homem alto. Também não chega a ser baixo; mas toca o alto da porta sem ficar nas pontas dos dedos dos pés e sem esticar completamente os braços. A boca, de lábios grossos e definidos, é bem clara, tendo quase a mesma cor da pele do resto do rosto, abriga os dentes grandes que parecem ser todos do mesmo tamanho, regulares como o teclado de um piano, e declama - Drummond - com peculiaridade e prazer. Expressa com os olhos mais que palavras e dá sentidos novos a antigos termos corriqueiros. As lentes dos óculos em retângulo, essenciais, não escondem as sobrancelhas castanho-claro da mesma tonalidade dos cabelos que já teimam em abandoná-lo. Não que isso o faça menos do que ele é, de jeito algum. Impossível haver tal harmonia sem cada detalhe que ele revela.
É um homem. Esguio e magro, revela a barriga, quase um palmo abaixo do umbigo, em um gesto distraído ao se espreguiçar. Seus braços não param um minuto e as mãos são companheiras dos olhos escuros e dos lábios claros em deixar mais óbvio o que quer dizer. São pequenas, de fato. Não bem pequenas, mas tem dedos finos e não tão longos assim. É bonito quando fala, pronuncia um "A", assim, bem aberto, e mostra a boca que abre num arco longo, marca um traço em cada lado do rosto e uma covinha acima do traço, somente no lado esquerdo. Não sei se rói as unhas. Daqui não dá pra ver. Mas que importa? Tanto faz.
Nunca está barbado. Pelo menos não nas quatro vezes que o vi, não estava. Aliás, pouco dá pra perceber de sua barba, que, ao que me parece, não pode cobrir-lhe o rosto devido às falhas. É destro, de costas largas, quadris bastante estreitos; corpo de homem. Ah, sim! Agora vejo! As unhas são bem curtas, como se fossem roídas, mas não são. São brancas, limpas e as cutículas têm uma aparência macia, bem como as palmas das mãos, que teima em exibir.
O reflexo das lentes antes não me deixavam perceber que seus olhos na verdade são verdes. Não esse verde que a gente consegue ver através. Mas um verde escuro, mais escuro que azeitona, com a íris bem marcada como com régua e compasso. São realmente expressivos e me fitam sem suspeitar de nada. Eles me encaram como se eu fosse mesmo eu, e não o que, a princípio, me interessa ser. Ele me comove com a paixão que declara, não por mim, nem por ninguém, mas por algo que parece fazer questão de deixar claro, ser sua razão de viver. Ele me dá esperanças ainda.
Não é propriamente belo. É a sua transparência em 8 horas. A sinceridade e a não-vergonha, o não ver problema em falar nada e dizer tudo o que passa pela sua cabeça sem hesitação, provocando riso e sorriso, assustando por tanta inocência. Tem manias com certeza, mas, Oxalá, são boas. Usa tudo na medida; sem exageros, cada detalhe se encaixa perfeitamente e seria um pecado que qualquer um deles fosse deixado de fora. Tudo organizado, limpo e arrumado. Muita cor, livros e som.